Prestenção: Luedji Luna - Bom Mesmo É Estar Debaixo D'Água

resenha por: Raul

Bom Mesmo É Estar Debaixo D'Água
Luedji Luna
Ano: 2020
Selo: Independente
Auge: Goteira, Lençóis, Recado


Diante da imagem de Luedji Luna, mergulhada por dentre as águas verdes claras, que ilustra a capa do seu mais novo disco, Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água, são pinceladas sensações de um possível mergulho interior que não diz respeito somente ao ato de estar diante da água, mas também em imergir nos sentimentos, sobretudo, da matéria amor.

Falar sobre o amor nunca foi tão simples, pois por tantas vezes é matéria que desliza das mãos. Isso se torna ainda mais questionador diante da dizimação de corpos historicamente oprimidos. Cantar sobre o amor é resistência. Luedji Luna amplia o tema, que desde seu disco de estreia Um Corpo No Mundo já colocava em questão, em versos como a da própria faixa que leva o título: “E a palavra amor, cadê?”

Dando sequência a narrativa desse corpo atravessado pelas marcações raciais e de gênero, Luedji constrói a tessitura de seu trabalho a partir das relações de afeto, e questiona a construção social afetiva em relação às mulheres pretas. Trata-se de um visível amadurecimento da artista enquanto compositora, em um trabalho em que afinca toda a potência de sua poesia.

Para isso, convoca grandiosas referências e parcerias. Como é o caso da versão para Ain’t Got No de Nina Simone que ainda conta com um poema e declamação de Conceição Evaristo. Na sequência Ain’t I a Woman? recria uma dos maiores discursos de Sojourner Truth - ativista abolicionista - “E eu não sou uma mulher?”. E a faixa Lençóis, uma das canções mais sensíveis do disco, que conta com a composição da escritora Cidinha da Silva e a inserção de um poema visceral da poeta Tatiana Nascimento. Como uma rede lançada ao mar, as participações tecem cruzamentos poéticos, de vozes pretas, construindo um disco de afeto em seu mais amplo significado.

Gravado no Quênia, no começo de 2020, Luedji também aposta em sonoridades distintas do primeiro disco. A percussão, ainda que presente, abre alas para os baixos, guitarras, vestindo e apostando no jazz que possui espaço central na harmonia desse trabalho. Diante da complexidade dos arranjos, o lirismo profundo das letras, e ainda o magistral trabalho entregue no álbum-visual, que pode ser visto em seu Canal do Youtube, Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água nasce como um dos discos mais importantes do ano.