Prestenção: Lau e Eu - O Futuro Está Distante

resenha por: Raul

O Futuro Está Distante
Lau e Eu
Ano: 2020
Selo: Matraca Records e YB Music
Auge: Seu Corpo Vermelho de Sol, Amor, Cê Me Fudeu


O Futuro Está Distante, frase que anuncia o mais novo trabalho do projeto Lau e Eu, e que também leva o nome do EP, dialoga com os dias em que se há pouca esperança e o mundo parece do avesso.

Em volta de uma atmosfera cinzenta, que se percebe não apenas pelo projeto gráfico, mas também pelas letras que são verdadeiras pedras que revelam o desgaste da vivência em metrópoles, assim como o acesso aos sentimentos mais íntimos, que se mostram difíceis de lidar.

Dessa maneira, Lauckson José, músico alagoano que encabeça o projeto, concilia uma obra conceitual, que mescla o EP a um curta-metragem e a um manifesto textual, e ainda, acessível ao aprofundar-se nos sentimentos de forma tão legítima das indagações da juventude e do tempo presente, utilizando de letras e sonoridades tão próximas desse universo, como se mostra na canção "Se o Nosso Amor Fosse São Paulo", versos que completam a frase: "você seria o Tietê/ O coração engarrafado/ É que eu odeio esse teu jeito de falar".

Outra ótima canção que ”Seu Corpo Vermelho de Sol”>i> de versos como: "Seu corpo vermelho de Sol/ Flores na sacada/ Eu olho seu rosto/ Você não diz nada, não/ Eu fico perplexo, espero uma reação/ Seus olhos castanhos, só olham o chão.". Aqui de fato parece que a experiência criada por Lau e Eu, fundem o particular do eu, com o universal da cidade grande, e a ruína em comum.

Tudo isso é construído com baixos, baterias, guitarras e sintetizadores, criando uma pegada lo-fi, de camadas que aparecem verdadeiras nuvens, quase um percorrer as ruas de São Paulo em suas fumaças industriais e na poluição que reina, (gerando aquela sensação de que somos apenas mais um ser no mundo diante de toda imensidão). A partir daí que mora a melancolia e a humanização da narrativa do disco.

Como já posto, o projeto se complementa com um curta-metragem e um manifesto. Se o futuro está distante, cabe a brecha de pensar que estamos no presente. Vivendo o agora. E o compromisso com a arte e toda sua potencialidade pode ser o acesso a um possível futuro. Nesse sentido, o manifesto questiona o papel do consumo da arte e também a aproximação do artista como qualquer outra pessoa. Parafraseando as palavras do texto, é necessária uma arte que seja catalisadora ao apontar as contradições que permeiam a exploração dos indivíduos.

Em O Futuro Está Distante, Lau e Eu entrega um projeto e usando das diferentes potências da linguagem, constrói uma obra que coloca em questão a experiência da cidade ao lado dos desamores, frustrações e medos.