Prestenção: Crack Cloud - Pain Olympics

resenha por: Roma

Pain Olympics
Crack Cloud
Ano: 2020
Selo: Meat Machine
Auge: The Next Fix, Ouster Stew, Post Truth (Bird of a Nation)


É sabido que a vida nunca se postou como uma linha concisa e constante, e para os mais existencialistas dividir as emoções em uma moeda de duas faces faz sentido algum, uma vez que em momentos de tristeza coexistem alívios e em momentos de alegria se escondem ansiedades.

O coletivo canadense Crack Cloud cria um universo para falar especificamente desses altos e baixos da vida, mas não de forma linear. Inspiradas em obras como Pink Floyd - The Wall (Columbia, 1979), The Beatles - Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (Parlophone/Capitol, 1967) e Kendrick Lamar - To Pimp A Butterfly (Aftermath/Interscope, 2015) cada integrante da banda traz consigo suas experiências e vivências, e também influências musicais para compor aquilo que chamam de um compilado de ideias de um pensamento coletivo.

Quando falam sobre o álbum ser um registro não linear sobre as injúrias da vida, isso significa que a banda percorreu gêneros como a eletrônica, o industrial e principalmente o pós-punk, que trazem linhas sempre muito bem calcadas em assuntos políticos para falar de forma mais abstrata sobre pensamentos e devaneios, e sobre como tudo que se apresenta conciso é sustentado por um remendado de falhas e adaptações.

Segundo entrevistas do porta-voz da banda para a Apple Music, a vontade de se fazer um álbum conceitual que contasse uma história que dura mais do que 3 minutos sempre foi presente e moldada pelas obras acima citadas. E a necessidade de se criar um universo para isso era tão importante quanto.

É por isso que a pioneira Post Truth (Birth of a Nation) é chamada de big-bang, pois é ela que cria o universo que contará a história que Pain Olympics tem pra contar. Carregada de camadas eletrônicas e industriais a música abre o portal que vai brincar com essa dualidade e dicotomia que é super apreciada pelos integrantes da banda, fugindo um pouco daquele talvez clichê de se falar dos conflitos internos naquela narrativa depressão-ascensão que a gente muito conhece.

Ao longo das 8 músicas o álbum se molda entre músicas tristes, músicas alegres e também nas "lobas com pele de cordeiro": as músicas feitas pra serem dançadas nas rádios mas que falam de assuntos complexos e não tão alegres assim, como é o caso de Ouster Stew.

Ao fim do álbum, o que se espera é um fechamento de uma história que foi começada, mas como o ouvinte percebe nos álbuns de Kendrick e Pink Floyd, aqui também o final se apresenta aberto a novas histórias, através de um poema curto, mas intenso: "O passado assombra todas nós/ e o futuro é cheio de dúvidas/ nosso senso de valor é obscurecido pelo então, e não pelo agora/ a mesma triste moeda/ tem dois lados/ e atravessa para um mundo/ trancado no limbo e no espaço/ tortuoso em sombras e ferrugens/ fingidores cimentados em luxúria/ decidindo o que é e o que é necessário/ mentes feitas de cinzas de anjos".

Nessa onda de revisitações a gêneros musicais do final do segundo milênio, o que faz o coletivo se destacar do todo é a desconstrução da formatação de ideias que a ouvinte espera. Além do experimentalismo forte nesses quase trinta minutos de história, abstrair a política através da mente te coloca no processo de encontrar um detalhe novo a cada ouvida deste álbum.

Em seu trabalho de estreia, o coletivo canadense Crack Cloud se ambienta no pós punk, na eletrônica e no industrial pra falar principalmente da política da humanidade, num mundo onde planejamento e caos são sinônimos.