Prestenção: Carne Doce - Interior

resenha por: Raul

Interior
Carne Doce
Ano: 2020
Selo: Independente
Auge: Passarin, Temporal, Sonho


Ao estar diante de Interior, o novo disco da banda Carne Doce, já nos abrimos para uma dualidade que surge a partir da própria palavra que leva o título. Ao tempo que são construídas narrativas e sonoridades que mostram a potência da arte e da história que estão geograficamente distantes de um “possível” centro, também a palavra interior convida para uma viagem por dentro do subjetivo, por dentro de uma matéria desconhecida e muitas vezes deslizante.

Esse duplo sentido já se mostra na primeira faixa, Temporal, canção que prevê um “pré-apocalipse” ao tempo que já vivemos grandes catástrofes ambientais e a lógica de destruição governamental com tudo aquilo que brota parece uma orientação. A voz de Salma Jô que cede a longos instrumentais, criam uma experiência sensorial de ouvir a música com todo o corpo.

O miolo exposto do pequi, fruto típico do cerrado, está na capa do disco, e faz a gente se perder pela beleza e complexidade desse miolo. Um fruto maduro é uma potência e concentração de tudo que ali existe. Não por acaso, a palavra trabalhada e livre é também um estado de potência, e para isso melhor dizer, trago os versos de Octávio Paz: “A palavra, finalmente em liberdade, mostra todas as suas entranhas, todos os seus sentidos e alusões, como um fruto maduro ou como um foguete no momento de explodir no céu”¹.

O fruto nesse caso é o pequi. Mas não somente. A poeticidade e sonoridade consolidada pelo grupo mostram assim como um fruto maduro, todos os sentidos que o ato de adentrar o interior podem causar. E como Paz disse, lança ao universo feito foguete que explode (e que depois podem respingar em nossos corpos). E fazem enxergar um brilho no céu. Algo que ali brilha, mas que também queima.

Canções como Passarin, que deseja um amor que talvez nem mesmo acreditamos, Hater na dualidade de creditar o sentimento do próprio algoz, A Caçada em até que ponto cedemos ao jogo de ser domado ou em Saudade, em se espantar com um sentimento que já achávamos que tinha deixado para trás, são verdadeiras trilhas ao nosso interior, de sentimentos tão maduros, mas revestidos pela casca e que exige cortar ao meio, encarar os miolos e acessar de frente esse interior.

Carne Doce aguça a poesia como o sumo doce de um pequi através de uma viagem que explora a dualidade da palavra interior, entregando mais uma obra que impacta pela forma de criar imagens através da palavra e do som.


¹PAZ, Octávio. O arco e a lira. Tradução Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.