Prestenção: Everything Everything - RE-ANIMATOR

resenha por: Roma

RE-ANIMATOR
Everything Everything
Ano: 2020
Selo: AWAL
Auge: Planets, In Birdsong, Black Hyena


Sabemos que muitos artistas marcam sua história lírica através da melancolia do existencialismo, e sabemos também que muitos gêneros musicais tem como base de conceito esta dita melancolia. Pensando em tudo isso, quando nos trazemos para todos os acontecimentos de 2020 é quase nevrálgico pensar que a única possibilidade de produção artística deste ano deve ser voltada para este tema.

Acontece que quando olhamos o passado de produção do quarteto de Manchester, seus dois últimos trabalhos como o aclamado Get to Heaven (2015, RCA) e o sucessor A Fever Dream (2017, RCA) já estavam imersos nesse universo. Foi então que o líder da banda Jonathan Riggs decidiu respirar um pouco e escapar desse turbilhão de profundas reflexões e pensamentos pessimistas para dar forma ao seu mais novo trabalho, antes mesmo de 2020 ser tudo isso que está sendo.

O estopim para essa fuga existencial veio a partir da leitura da Teoria da Mente Bicameral, um conceito da psicologia que diz que a mente já foi dividida em dois setores, um de fala e um de escuta, e que a evolução desses dois setores em um só desenvolve hoje o que conhecemos como consciência. A partir dessa visão, Higgs comenta à Apple Music que començou a pensar em coisas grandiosas e desenvolveu um álbum que fala sobre "desapego, ressureição, bicho-papões e divindades compostas de gordura coagulada".

Outro ponto importante do álbum é o desprendimento com a perfeição, que antes era algo muito presente nas composições que flertam com o art rock e o experimental. A banda fala que o processo de produção foi orgânico e suave, trazendo os ditos erros como parte da construção deste novo projeto e fazendo com que tudo isso durasse duas semanas. Alex Robertshaw, multi instrumentista da banda comenta que essa ideia veio após a exaustão de terem gravado sem nenhum sucesso sessenta tomadas de baixo: "o público nos prefere como uma banda ao vivo, então quisemos trazer essa sensação pro álbum também".

Abrindo o projeto de pouco mais de 45 minutos, a pioneira Lost Powers fala sobre um tema bem presente nas líricas de Higgs, o desperdício de potencial. A música, segundo a própria banda é um pastiche modernizado do experimentalismo presente em The Bends de Radiohead e fala de uma forma bem humorada em meio as guitarras glitch de Alex sobre como está tudo bem chegar na exaustão do existencialismo e perder a cabeça.

No decorrer das onze músicas percebe-se uma brincadeira com essa dualidade da mente bicameral, onde o eu lírico sempre fala sobre momentos de tristeza ou que ao menos são interpretados como tristes mas de uma ótica bem humorada, trazendo significantes positivos para cada um desses delírios. Nas letras de It Was A Monstering, por exemplo, Jonathan cita através de referências a monstros de mitos urbanos um personagem que pode ser interpretado como ele mesmo, de uma forma que às vezes nos enxergamos como externos aos problemas quando na verdade somos os próprios causadores deles.

Os próprios integrantes da banda dizem que os pensamentos que rodeiam esse projeto foram sempre muito sombrios, mas a necessidade de trazer um tom humorístico e até mesmo ridículo se fez importante para encarar as questões existenciais de forma irônica. As tentativas sem sucesso de reprodução das bases sintéticas nos arranjos e as letras que fazem alusão a situações esdrúxulas do cotidiano dão liga a uma história muito profunda sobre a imensidão do universo e a insignificância da humanidade.

RE-ANIMATOR traz a animação em dois sentidos: tanto como uma revisitação ao pensamento do que é de fato humanidade e consciência quanto uma forma de reverter os pensamentos melancólicos em óticas irônicas e bem-humoradas de todo o sofrimento que o próprio ser humano causou a si mesmo.