Prestenção: Hot e Oreia - Crianças Selvagens

resenha por: Raul

Crianças Selvagens
Hot e Oreia
Ano: 2020
Selo: Malab
Auge: Vírus, Papaia


Diante do sucesso de público e crítica, Rap de Massagem (2019) o disco de estreia da dupla Hot e Oreia, foi um dos acontecimentos musicais mais importantes do ano passado. A mistura de rap e humor, assim como uma estética que cotuca os padrões de masculinidade, colocou a dupla num espaço que era necessário ocupar e tematizar. Quase um ano depois, apresentam o mais novo trabalho, o Crianças Selvagens, aguardado registro e que já nasceu com certa expectativa. Ainda que preservando características como o humor e a ironia, o novo disco reafirma em como a dupla não deixa de lado a liberdade para criar. Isso se mostra por exemplo, na presença de samples de grandes clássicos de Nelson Ned e Caetano Veloso, e que dialogam diretamente com a proposta do disco e o contexto que está inserido.

Aliás, pensar o momento histórico em que foi criado, ainda que não se limite ao seu tempo, é importante para refletir as críticas que constroem. Os reflexos da política de morte, a pandemia do coronavírus, a liberdade sexual, aqui colocada em questão a masculinidade frágil, parecem urgentes e que se reinventam numa poética bastante original diante de seus contemporâneos.

Sobre a ideia do projeto, eles contam ao portal TMDQA, que o disco é sobre a mudança que vem de dentro, que é aberta para o novo como crianças, e também, tentando sobreviver num espaço que é urbano, dentro de ideais de civilização que são violentas e hostis. Nesse cenário é onde confluem a narrativa do trabalho, que se evidencia na estética da capa e vídeos divulgados, que usam da selvageria e certa primitivação.

Ao longo da história, as representações artísticas usaram da figura do selvagem, seja como o “bom selvagem” que representa a miscigenação (num projeto de construir uma ideia falsa de Brasil) e mais tarde nas representações naturalistas e realistas, a fim, dentre outras coisas, animalizar a figura humana. Olhando para Crianças Selvagens, qual o peso de usar a figura do selvagem no Brasil de hoje? Ainda que a história se repita, como por exemplo na atuação de negacionistas e terraplanistas, a ideia de primitividade vem para mostrar que não estamos andando para a frente. Mas também voltar para os antepassados pode marcar certo valor de resistência, e a partir daí, construir um mundo diferente do que nos foi dado, e assim, as crianças cumprem o papel de sementes para essa construção. Nesse sentido falar sobre cobiça, desigualdades, machismo - aspectos que matam as formas de viver - são alicerces dum disco que mira em se abrir para o novo, e construir-se como um indivíduo melhor.

Cercado de colaborações, o novo disco de Hot e Oreia consolida a dupla como uma das mais criativas da cena, ao trazerem reflexões a respeito do Brasil de hoje, que com certeza, é o mesmo Brasil de antes. Mas que também entregam uma poesia de esperança.