Prestenção: Sevdaliza - Shabrang

resenha por: Roma

Shabrang
Sevdaliza
Ano: 2020
Selo: Twisted Elegance
Auge: Wallflower, Joanna, Lamp Lady


Simples, forte, delicada e intensa ao mesmo tempo é como se apresenta a capa do mais novo álbum da cantora, compositora e produtora irani-holandesa Sevdaliza. O nome Shabrang remete ao nome de um cavalo negro de um poema persa que um príncipe iraniano usou para cavalgar entre montanhas de fogo tentando comprovar sua inocência perante uma acusação de violência.

Através dessa ideia de apresentar-se dentre marcas profundas de violência em busca de uma imagem livre de acusações, a artista que nunca negou suas origens iranianas – fato que inclusive chama a atenção de todo ouvinte que se põe pela primeira vez às suas obras – usa das naturalizações da culpabilização da vítima na sociedade para convidar a todes a adentrar um trabalho que fala de passado, origem e trajetória regados a momentos de escuridão.

Dada toda essa apresentação, o sucessor do super bem feito ISON (2017, Twisted Elegance) é o tipo de trabalho que precisa ser digerido. Com uma ambientação no trip hop que toma pinceladas de eletrônico e sempre com vozes carregadas de efeito o álbum fala de relacionamentos e conflitos de uma forma pesada, daquelas que a gente precisa respirar e tomar uma água pra voltar num outro momento.

Logo na faixa de abertura Sevdaliza apresenta a personificação de Joanna, uma pessoa que, segundo as palavras da própria artista para HypeBeast, "amou profundamente e se perdeu profundamente num amor não correspondido. Joanna é hoje uma dor imensa que eu sou feliz de enxergar como passado, alguns afortunados serão capazes de experienciá-la, outros afortunados serão capazes de escapar dela".

O álbum segue com a faixa homônima que tenta mostrar especulações da artista tentando se livrar desse romance, ou melhor, desse "sacro-sofrimento", no qual ela se entregou profundamente. Essa linha de relacionamentos é algo sempre presente nos trabalhos de Sevdaliza, com uma diferença de que agora a produtora parece escrever algo muito mais direto e muito menos metafórico do que em seus trabalhos anteriores.

Em Lamp Lady, uma das faixas-single, retrata-se a vida cotidiana nos mercados ao ar livre do Irã, contando a história de uma moça que vende tangerinas mas se devaneia no sonho de conquistar algo muito maior que aquilo. A lâmpada dita nas letras é um elemento interessante do islã, pois é a forma como os fiéis acreditam estarem mais próximos de Allah, o deus, carregando sua luz onde quer que estejam.

Muitas outras referências diretas a cultura islâmica aparecem na obra da artista em conjunto com o co-produtor Mucky. Na balada romântica Habib, que é uma forma carinhosa de se chamar um romance comumente apresentado numa figura masculina, as letras parecem falar sobre uma fase profunda de relacionamento abusivo em que a pessoa abusada parece se encontrar sozinha e presa num processo de devoção ao abusador.

Em momentos como a excelente Wallflower o álbum entra numa roupagem direta do trip hop que lembra inclusive nomes como Portishead, para que a artista converse consigo mesma, ou ao menos com uma persona com o codinome de Wallflower. Em tradução livre, a flor de concreto sempre faz alusão a pessoas que passaram por trajetórias difíceis ou que enxergaram a luz mesmo passando por momentos de dificuldade. A própria cantora comenta que é como se ao olhar pro seu passado sua vida tivesse essa trilha sonora.

Carregado de citações da bíblia o projeto de 15 músicas pinta a relação da artista com o seu romance conturbado nas figuras de Adão e Eva, em momentos como Eden e Darkest Hour, seu primeiro single de divulgação de Shabrang.

O conceito "de gênesis ao apocalipse" é sempre muito forte do começo ao fim, e assim como na escritura sagrada aqui no álbum ele representa a total ruptura de um momento muito conturbado. É praticamente o ponto final de algo que consumiram talvez os 33 anos da multiartista nascida no Irã e que agora se lançam para novas experimentações.

Atravessando vulnerabilidades e fazendo com que houvesse luz quando assim o quisesse, Sevdaliza nos entrega sua obra mais direta e sensível sobre sua trajetória, perpassando relacionamentos e conflitos que se emaranham e bebem de suas raízes islâmicas mais do que nunca.