Prestenção: Kelly Lee Owens - Inner Song

resenha por: Raul

Inner Song
Kelly Lee Owens
Ano: 2020
Selo: Smalltown Supersound
Auge: Melt!, Night, On


Quando tudo está em completo silêncio, o que se pode ouvir? Kelly Lee Owens naufraga em questões como essa, em suas múltiplas metáforas, para construir um registro que nos coloca defronte a própria natureza humana. Até porque, quando em completo silêncio, o som da nossa respiração dança com o próprio silêncio. O som do interior nunca cessa antes da morte.

Após sua estreia solo em 2017, Owens passou por anos conturbados em sua vida. A cantora, compositora e produtora do País de Gales recebeu críticas muito positivas em relação ao debut, e tudo parecia estar deslanchando com os inúmeros convites para trabalhos e seu nome como um dos mais promissores da nova cena eletrônica. Inner Song é o reflexo das perdas sofridas durante esse momento. Além da morte da avó, a perda de si mesma foi a mais forte e difícil dentre todas elas e Owens encontrou na composição do disco uma maneira de se reconstruir. Em entrevista à NME compara seu trabalho como um recipiente, depositando nele todos os sentimentos e aprendizados desse período, cabendo a quem ouvir pegar ali o que lhe é necessário e o que lhe cabe.

E de fato, ao ouvir o disco estamos diante de uma entrega absoluta. Ao mesmo tempo em que se têm letras que falam sobre força e renascimento, o trabalho também nos lança para a pista de dança. Mas não é como se estivéssemos numa balada, ainda que também possa ser isso. O disco parece brincar e testar o próprio corpo como espaço de experiência. Não por acaso a natureza tem papel central na mobilização e criação do trabalho.

A faixa de abertura trata-se Arpeggi, canção que compõe o disco In Rainbows do Radiohead, crucial para a artista. A partir de camadas eletrônicas Owens segue essa linha sem medo de apostar nos vocais, como na seguinte On, que denota uma carga dreampop para o álbum. A letra aponta para aprendizados que precisam ser repetidos mil vezes:” Só pode amar tão profundamente quanto você se vê.”

Um dos momentos mais interessantes do disco é em Melt! que trata de um chamado para a crise climática e que junto com o videoclipe expandem a crítica da composição. É também nesse instante que o disco transita por sonoridades atmosféricas, deixando evidente a influência do techno, que chega em seu ápice em Night e ainda possui vocais poderosos com a participação de John Cale, vocalista do The Velvet Undergroung em Corner Of My Sky.

Tendo como força a palavra motriz que acompanha Inner Song, Kelly Lee Owens explora a música eletrônica e pop para se reconstruir e entender a vida e seus movimentos oscilantes. Mergulhando os medos, convida o corpo para uma dança que é a própria experiência de ouvir.