Prestenção: Fontaines D.C. - A Hero's Death

resenha por: Roma

A Hero's Death
Fontaines D.C.
Ano: 2020
Selo: Partisan
Auge: I Don't Belong, You Said, A Hero's Death


Até ano passado a banda de Dublin era apenas um grupo de jovens que seguia compondo canções e tocando em pequenos shows, até que no lançamento do sensacional Dogrel(2019, Partisan), Fontaines D.C. se tornou uma das bandas mais presentes na boca da crítica que citou sua estreia como uma das melhores coisas que aconteceram na década de 2010 quando o assunto é pós punk.

O álbum passado tinha uma atmosfera muito saudosista e ao mesmo tempo ferrenhamente crítica a vida da capital irlandesa, e a introdução rebuscando de forma tão forte o trabalho anterior da banda vem porque A Hero's Death é literalmente uma continuação. Em todos os sentidos possíveis.

Trazendo líricas mais existencialistas, o álbum que foi lançado com pouco mais de um ano de diferença do sucessor é extremamente atual e consoante ao que os artistas estão passando no momento. Permeado pelo existencialismo demo escritor Oscar Wilde, o vocalista da banda Grian Chatter conta em entrevista a Apple Music que o questionamento da vida sóbria e saudável o martelou por muitos momentos, e a turnê massiva de shows causava, ao mesmo tempo que um sentimento de alegria, uma sensação de cansaço estresse e ansiedade.

Adentrando um pouco mais a carta de apresentação da obra, Chatter conta que em uma noite de comemoração estranhamente bêbado ele se pôs a questionar se aquilo tudo valia a pena, saindo daí a frase "a felicidade é uma vida de olhos fechados"e que culminou a produção de toda essa atmosfera de A Hero's Death.

O trabalho questiona a dualidade entre ser uma banda renomada, que produz materiais de qualidade se mantendo num nível de produção constante e a quebra do ponto de inflexão que começa a transformar o grupo em meras engrenagens da produção fonográfica, perdendo sua essência e identidade em prol de algo aparentemente proveitoso.

Ao percorrer esse universo da obra, essa correlação com o projeto de estreia é bem sutil, e é isso que me chamam mais a atenção. Sem saber dessa ambientação do processo criativo, o ouvinte pode se deparar com um trabalho que fala muito sobre as relações humanas, o existencialismo e a busca pela felicidade. Trabalhando sempre essa exposição e questionamento do que é realmente saudável e sóbrio.

Carregado de filosofias, logo na pioneira I Don't Belong é colocado em questão o sentimento de não pertencimento, que pode ao mesmo tempo ser libertador e tristemente solitário. Outra música existencial, I Was not Born vem mais como um sentimento de revolta de que a banda não entrará nessa engrenagem de perder as raízes para se tornarem um outro produto do mercado: "eu não nasci/ nesse mundo/ para fazer mais um acordo de homens".

Em uma briga interna o eu lírico deste trabalho parece traçar um debate profundo sobre a linha tênue entre corroborar de coisas do sistema ao qual ele está submetido e ser totalmente corrompido pelo status quo. Na música que dá nome ao álbum isso fica bem explícito quando numa repetição frenética de "a vida nem sempre foi vazia" a personagem tenta se convencer de que muitas das coisas não são feitas em vão, e que ações conscientemente despretensiosas devem ser tomadas para que não sejamos apenas mais uma vida mecânica: "traga seus próprios dois centavos/ nunca tome nada emprestado de ninguém/ … / nunca deixe o relógio dizer para o que você tem tempo/ ".

É interessante notar que a música intitula o trabalho é também a que traz a maior força do que o álbum representa. São frases que te esmurram sobre qual é seu verdadeiro propósito e o quão genuínas são as ações que você toma individual ou coletivamente. A partir daqui inclusive a gente entende que a famigerada morte de um herói fala muito sobre o fim de algo que nunca foi sobre você.

Em seu mais novo trabalho, o quinteto irlandês surge existencialista, desta vez com uma paisagem interna onde as ruas de Dublin cedem espaço para as ruas internas carregadas do trânsito caótico das reflexões do próprio eu.