Prestenção: Roseane Santos - Fronteiriça

resenha por: Raul

Fronteiriça
Roseane Santos
Ano: 2020
Selo: Independente
Auge: Ancestralidade, Guelras, Valsa da Lua


Não dá para sair imune após ouvir o disco de estreia de Roseane Santos. Por isso, senti dificuldade em começar a escrever estas linhas. Diante de tantos cruzamentos e sensações, num ato de ainda absorção sobre as diferentes formas que a obra me tocou, ao mesmo, que senti a precisão de agir de alguma maneira, como é convocado na primeira canção “Pedras e Escritos”: “Segura seus amuletos, seus livros, seus cristais, seus pedras e escritos, segura pela mão as suas amigas, seus amores antigos e recentes, segura seu próprio corpo”. Para diferentes momentos históricos, segurar a mão de nossos pares parece sempre a melhor saída e o ato em que se encontra forças.

Fronteiriça é fruto de uma longa carreira da artista muito presente principalmente na cena de Curitiba. Todas as referências e vivências se presentificam no corpo de cada canção. O título “fronteiriça”, em entrevista a Noize, Roseane aponta que “sempre foi pensado como espaço de conexão”. Assim, estamos diante de uma poética terrena. Dentre tantos outros aspectos, é o disco sobre o espaço, um disco que pisa no chão. E que peso e leveza, que dor e beleza pode se encontrar nisso? O que me leva a pensar também nos versos da poeta Lubi Prates: “Para este país eu traria/ os documentos que me tornam gente os/ documentos que comprovam: eu existo/ parece bobagem, mas aqui eu ainda não/ tenho esta certeza: existo”.

E será nesse espaço, que tomará como força para se conectar com os demais, e consigo. Através de uma percussão muito presente, diálogos constantes com o samba e a ritmos africanos, somos imergidos por um território musical que sempre desperta vivacidade e a sabedoria, que vem dos laços, da experiência e da própria dúvida: ”E como entrar no rio? Eu sinto e digo/ Que às vezes rola um desespero/ Você me diz que sempre/Sempre dá pé/ Mesmo que seja/ Com um monte de água em volta/ Eu imagino guelras/ Ela me ajuda a mudar o pensamento”, versos da faixa Guelras.

Outro aspecto presente no registro é a costura da memória e sua importância para essa cura que aparece em Pequena Ladainha de Cura canção que é um verdadeiro mantra e que ecoa dentro do nosso próprio corpo. Essa poética terrena que menciono, é sobre como vai trilhando caminhos, e nessa trajetória o corpo fala e sente. Cheio de texturas e sensações, como um sol que se contorna em Pastel na Praça, o aquática em Valsa da Lua, a força mística de Ancestralidade e do coro que se repete em Não Obedeço. Estar na fronteira que Roseane Santos constrói é estar numa experiência que atinge os sentidos.

Como tomar um banho de folhas, e sentir-se renovado, Fronteiriça é um disco enorme ao tocar em lugares profundos, e ainda que seja dolorido, conforta e apresenta o poder da conexão.