Prestenção: Ventura Profana, Podeserdesligado - Traquejos Pentecostais Para Matar O Senhor

resenha por: Roma

Traquejos Pentecostais Para Matar O Senhor
Ventura Profana, Podeserdesligado
Ano: 2020
Selo: Independente (dist. Tratore)
Auge: EU NÃO VOU MORRER, Homenzinho Torto


"Eu fui no terreno do inimigo/ e eu tomei tudo que me roubou". Numa das primeiras frases do novo EP colaborativo de Ventura Profana e Podeserdesligado, a pessoa ouvinte recebe logo de cara impactantes momentos da dupla e começa [talvez] a entender do que essa obra de nome tão impactante se trata.

As palavras podem soar rudes a pessoas que se colocarão em primeiro contato com o trabalho delas, mas a verdade é que se você chegou aqui transpassando por singles como Poder & Glória (Linn da Quebrada, PAJUBÁ REMIX I) e Resplandescente você sabe muito bem que esse desconforto além de ser característico do trabalho, se faz mais do que necessário.

A história sempre apontou relações de supremacia no que tange às instituições religiosas e quando falamos especificamente de religião e minorias a relação entre esses dois fenômenos se apresenta de forma praticamente dicotômica. Em meio a essa bruma surge a estética única da dupla que começou a ganhar destaque na cena underground do país por volta de 2015 e está em constante ascensão desde então.

Ventura, como ela mesma diz, é pastora missionária doutrinada nos templos batistas, pesquisadora das implicações do evangelicalismo no Brasil, filha das entranhas misteriosas da mãe Bahia e profetiza da abundante vida preta e travesti. Disseminadora da palavra de Deyse, constrói líricas através de revisitações a religiosidade protestante que vão desde transcrições de trechos bíblicos até a criações proféticas que fazem ode à vida das marginalizadas.

Podeserdesligado complementa o projeto com sua sonoridade densa, diversa e única, que bebe de estilos fortes como o bubblegum bass, o techno e o vogue beat e também carrega como bagagem histórica a relação conturbada de uma infância reprimida e religiosa do interior do Rio de Janeiro, pincelando em seu som uma crítica à desvalorização de artistas pretes na cena underground do país.

Traquejos Pentecostais Para Matar o Senhor vem direto para falar sobre como as relações bíblicas historicamente matam povos dissidentes, mas em nenhum momento ele retrata disso numa voz subserviente, reclusa ou prejudicada. O EP reverte o ataque, fomenta a revolta e planta a revolução através da figura de Deyse, aquela que salva as pretas e as travas e vem para reivindicar seu espaço que foi tomado por todos esses anos.

Através de passagens como "o salário do macho é a morte" em Homenzinho Torto ou em "restituição da condição de besta/ a qual me foi atribuída" em Restituição são postas em evidência a grande influência da religiosidade na inflagem dos dados de morte a pessoas LGBT [especialmente a pessoas trans] mas de uma forma que avisa o ouvinte que o juízo final da trava está pra acontecer e elas se põem fortes, pois "Se Deyse é por nós, quem será contra nós?".

Pro contexto criado no EP, foi-se o tempo em que a caça da população preta e travesti era senso comum. Deyse virá, e ela vai exorcizar o macho branco, mandar pencas de tabas pra acordar as gatas e o dia da trava está pra acontecer.

Ventura Profana e Podeserdesligado sucumbem a figura do sagrado cis e branco que embesta e mata a figura da trava num trabalho extremamente necessário que fala da restituição preta e travesti, num espaço pós sagrado que cria conforto e revolução àquelas que sempre foram excomungadas do senso comum.