Prestenção: Negro Leo - Desejo de Lacrar

resenha por: Roma

Desejo de Lacrar
Negro Leo
Ano: 2020
Selo: QTV
Auge: Tudo Foi Feito pra Gente Lacrar, Absolutismo Lacrador, Makes e Fakes


O ano é 2020 e em meio a todo caos que o mundo enfrenta a troca de comunicação mais consumida vem sendo a internet. E foi dela mesma que muitos movimentos nasceram, e dentre eles a chamada cúpula LGBT, um subgrupo da internet – na verdade uma manifestação dado que não se apresenta como um grupo organizado de fato – que é responsável por ditar muitos, senão todos, os tipos de conteúdo que se tornarão populares ou que serão boicotados na internet.

E é dessa cúpula que surge o termo "lacrar" que em uma breve e rasa explicação nada mais é do que uma gíria deveras vintage do universo LGBT utilizada para se referir a ações e posicionamentos que são perfeitamente inquestionáveis. A partir desta definição que Negro Leo brinca com texturas e ritmos ao apresentar sua nona obra de estúdio.

Desejo de Lacrar bebe do chamber pop da Tropicália e revisita a estética para tratar dos assuntos modernos e atuais. Nesse contexto internético, cheio de gírias e termos que surgiram com o uso massivo de redes sociais e plataformas online, o artista ressignifica o termo lacrar e problematiza o efeito dominó que essa inquestionabilidade causou.

São através de movimentos como o lacrador, a perfeição sem falhas ou até mesmo os intencionalmente silenciadores como a cultura do cancelamento ou o "vocês não estão preparados para essa conversa" que a discussão se tornou cada vez mais rara e restrita ao meio virtual. Nas palavras de Negro Léo em sua apresentação da obra “Lacrar é agir de forma insolente e revoltada. Vencer, se não de fato, virtualmente. Lacrar, na verdade, é o que nos resta”.

Através de dez faixas o cantor e compositor usa de muito experimentalismo para brincar com as diferentes facetas e problemas da lacração de internet, falando inclusive de como esse movimento contribui também para as manifestações de direita. O mito, é o lacrador da direita.

E não satisfeito em prender sua atenção com as interessantes sonoridades, Negro Leo também é forte nas palavras. Makes e Fakes é uma das faixas que escancara a inércia do web discurso: "simulacre/ agridoce/ medra na tela asceta/ meme/ de martelo/ e foice/ só sei que ninguém sabe/ vale o remate/ tudo existe/ para acabar/ em/ lacre". Também a excelente Tudo Foi Feito pra Gente Lacrar um samba praticamente cru com voz, violão e sobreposição de vozes ele canta "vão se atirar nos trilhos/ Eletrocutadas nos trilhos/ E voltar pra internet para ouvir outras vozes / Que surgem no vácuo das notícias/ Tudo foi feito pra gente lacrar" falando sobre como o movimento raso de debates que o mundo digital levanta é sempre cíclico e morre pela boca.

Num momento onde a única forma mais segura de sair de casa é através da internet, Negro Leo nos aponta as problemáticas dos discursos e movimentos que surgiram digitalmente, ressignificando a lacração num ambiente tropicalista e experimental.