Prestenção: Lianne La Havas - Lianne La Havas

resenha por: Raul

Lianne La Havas
Lianne La Havas
Ano: 2020
Selo: Warner
Auge: Bittersweet, Weird Fishes, Sour Flower


Dolorido e libertador são as palavras que costuram o novo disco de Lianne La Havas, posterior ao bem sucedido Blood de 2015. Partindo da pressão em apresentar um novo trabalho e não perder a essência de sua música, a trajetória desses cinco anos só passaram a mostrar alguma direção em 2019, após perdas e mudanças drásticas em relações pessoais. Essa descoberta em se auto enxergar, seja pela pessoa que você carrega ou pela crença de sua própria arte, trazem o sentido em titular seu nome para o disco, apesar de ser o terceiro da discografia.

O som de La Havas soa mais potente, segue linhas ousadas e graves, partindo da formação no R&B. A artista revela que “é a primeira vez que enxerga suas influências bem definidas e também o primeiro trabalho que apresenta uma narrativa”. A abertura com Bittersweet cria uma atmosfera “agridoce” que permanece ao longo de todo o registro, em uma dicotomia de dor e alegria, dependência e liberdade. Versos como: “Chuva agridoce de verão/ Eu nasci de novo/ Todos os meus pedaços quebrados” mostram que se no chão está somente os pedacinhos, sabemos que dará trabalho para juntar todas as peças e colocá-las no lugar e ainda que depois de juntas jamais serão da mesma forma. As marcas das rachaduras estarão ali evidentes. Se você olhar bem para elas, poderá doer. Doerá por lembrar do momento em que tudo se espatifou ao chão. Do outro lado, as rachaduras também dizem que estamos aqui, pisando sobre a terra. E talvez, mais fortes.

Com arranjos muito bem trabalhados que transitam entre a leveza e sons rasgantes através de jogos vocais, o uso de guitarras, teclados e bateria que combinam com o percurso traçado na história que nos conta: ”Fina como papel/ Você entende a dor que sinto?” frase de Paper Thin, que mostra a vulnerabilidade em sentir uma dor que ainda lateja, e que desponta até momentos de libertação e auto cuidado em Soul Flower: ”Quando estou quente, quando estou azul/ Eu não estou chorando por você/ Quando eu choro, é porque eu estou livre”. Faixa esta que possui uma composição com percussão que traz uma versatilidade nos arranjos. Aliás durante o disco somos agraciados com uma potente versão da música Weird Fishes do álbum In Rainbows (2007) do Radiohead e influências da música brasileira, em nomes como o do grandioso Milton Nascimento, que inspirou a faixa Courage.

Quando ouvi todo o disco me veio em mente a imagem de alguém acordando e percorrendo o corredor até chegar ao banheiro e se defronta com o espelho numa manhã de domingo ainda tímida. Não apenas olha para o espelho. Mas numa espécie de procura em se encontrar na imagem que vê ali. E respirando. Surgindo um sentimento livre de adjetivos. E depois fazendo um café, acende um cigarro e abre a janela. Essa pessoa podia ser eu ou você.

Lianne La Havas após um hiato de cinco anos entrega um disco que é reflexo de rupturas ao longo desse período. Do compreendimento das dores e mudanças da vida, nos ensina que o processo é sobre enxergar a beleza da força encontrada, do que propriamente palavras para se reerguer. Ainda que também possa ser isso.