Prestenção: Jessie Ware - What's Your Pleasure?

resenha por: Roma

What's Your Pleasure?
Jessie Ware
Ano: 2020
Selo: Independente
Auge: Spotlight, Save A Kiss, Step Into My Life


Sugiro dar play no álbum ao passo que você lê este singelo texto. Digo singelo não pela possível modéstia, mas é que diante de um lançamento tão assertivo e grandioso como o mais novo trabalho de Jessie Ware fica difícil qualquer coisa se nivelar e quiçá ultrapassar o que a cantora e compositora britânica nos apresentou nos últimos dias de junho.

Antes de falar da criatura falemos da criadora. Se você não conhecia os trabalhos anteriores de Jessie Ware sugiro beber da discografia completa para só então ter a dimensão do crescimento da carreira da artista e da exponencialidade da evolução que ela apresentou desde quando a ouvimos pela primeira vez em sua aclamada estreia com Devotion (PMR, 2012).

Já é de conhecimento de todos que a tendência do ano para os álbuns que permeiam o pop é a de revisitar as últimas décadas do século XX, principalmente os anos 70, 80 e 90. O ponto é que Jessie Ware sempre nos deu em todos os seus trabalhos algumas roupagens com fortes influências do R&B e pendendo algumas vezes pra Nu-Disco, tornando então essa imersão da moda 2020 algo muito mais natural em seu trabalho, mas ainda assim inesperado e surpreendente.

Sendo assim, como Ware mesmo cita, a palavra que melhor descreve What's Your Pleasure (Virgin, 2020) é "escapismo", seja ele interpretado pela própria cantora como uma fuga de suas baladas melancólicas apresentadas nos projetos antecessores, ou seja ele um momento de relaxamento em meio a todo o cenário caótico que esses dias tem sido. "Não é como se eu pudesse salvar o mundo, mas eu acredito que posso trazer um pouco de escapismo" disse em sua carta de apresentação.

Nas palavras de Jessie, o álbum tem a intenção de te transportar para uma pista de dança lotada de forma que você sinta toda a sensação de estar em uma festa. Sensação essa que muitos aqui há alguns meses já não não experimentam. E é de forma delicada e extremamente detalhista que a pioneira Spotlight abre as portas da boate e te permite alguns segundos suficientes pra você pegar o drink no bar e se dirigir a pista de dança pra tudo começar no momento certo.

Cada uma das faixas te leva pra momentos muito específicos de uma festa que provavelmente você rolezera que está lendo isso aqui sabe muito bem do que estou falando. A sensualidade que a faixa que dá nome ao álbum é perfeita pro flerte, Oh La La e Soul Control puxam a galera do passinho pra mandar aquela coreografia e quando você pede muito por um momento de respiro pra encher o copo de novo a balada romântica de Save a Kiss te joga no chão pra você cantar junto e perder a voz.

E é logo após um dos possíveis hits do álbum – e aqui um parênteses interessante de que todas as músicas conseguem facilmente serem hits – o álbum esvazia um pouco a pista com Adore You e In Your Eyes e deixa a festa fervendo pra você buscar aquele crush que trocou olhares lá no começo e disputar um dos cantos escuros da festa pra aproveitar ao máximo o decifre do que é o seu prazer que o álbum tanto te pergunta.

Tá seca fia? Pois é, quem não tá? E é exatamente pra se hidratar que Jessie Ware te puxa de volta pra caixa esquerda do front pra você por a prova toda a flexibilidade e condicionamento físico que você nem sabia que tinha com Step Into My Life, Read My Lips e (Mirage) Don't Stop. O clímax da festa que te faz dar aquela suspirada soltar aquele sorriso de orelha a orelha e pensar que bom que você ta viva pra experienciar tudo isso.

Como tudo que é bom dura pouco e a DJ tem hora marcada pra acabar o set, The Kill é a música que te prepara pra jogar o par de salto no ombro e arrumar as coisas que sobraram do teu look pra voltar pra casa. Quem beijou beijou, quem não beijou chora e a cabeça já começa a pensar nas ressacas do dia seguinte que você suplica pra que sejam só alcoólicas.

A luz da pista acende, Remember Where You Are dá suas caras e você se despede das amigas já deixando o próximo rolezinho marcado. Pra quem é de after, "o coração da cidade está em chamas" e a noite apenas começou. Na pista tem só a meia dúzia de guerreiras que incentivadas ou não ainda mandam as últimas coreografias pra só se darem conta que a festa acabou quando a DJ desligar tudo.

E assim termina o álbum, com uma narrativa aparentemente linear mas extremamente pivotante, que reúne muitas histórias de pista de dança em um único lugar, assim como toda boa e velha festa, independente da época e independente do lugar.

Através de remodelações super atuais de estilos muito clássicos como o Groovy e o Disco, Jessie Ware te puxa do caos do mundo pra te levar pra uma balada que te faz experimentar os melhores prazeres da vida.