Prestenção: Cadu Tenório - Monument for Nothing

resenha por: Roma

Monument for Nothing
Cadu Tenório
Ano: 2020
Selo: QTV
Auge: Nublado (feat. Sara Não Tem Nome), Monument for Nothing (feat. Juçara Marçal)


"Qual a última vez que toquei em alguém?" são versos ditos por Sara Não Tem Nome, uma das participações deste trabalho e talvez seja um dos pensamentos mais fortes e persistentes nesses momentos de isolamento, distanciamento social e ressignificação das relações.

Segundo o próprio produtor carioca, o álbum parte de um sentimento aflorado pela situação da quarentena mas que não necessariamente precisa ser enxergado como algo triste e pessimista. Cadu Tenório diz sempre ter estado ansioso pelo lançamento de Monument for Nothing. Por ser apegado a números considerou que 2020 seria o ano de lançamento deste trabalho, mas a chegada da pandemia o fez quase desistir da ideia.

Foi então que pensando em todo o trabalho que colocou em sua criação e pensando ainda em como os dias de amanhã são grandes incógnitas ele decidiu lançar ao dia 8 de junho a sua segunda obra de 2020, sucessora do denso trabalho apresentado em 孤立: Room Memoirs (Sinewave, 2020).

O artista disse em entrevista ao Floga-se e ao Trabalho Sujo que seu novo trabalho é um processo introspectivo que começou antes da pandemia, e foi quando se decidiu lançar a experimentar áreas que sua músicalidade ainda não havia atingido. Foi pensando na melancolia dos dias de isolamento e na incerteza do futuro que o produtor inclusive cita que esse álbum foi feito como se fosse o último de sua vida.

Isso pode explicar sua grandiosidade que com quase uma hora e meia de duração e flertando fortemente com o ambiental e o experimental conta com a presença de nomes como a já citada Sara Não Tem Nome, mas também com Juçara Marçal, Carla Boregas, Mauricio Takara, Emygdio, Lucindo, Rogério Skylab e Vitor Brauer. Cadu explica inclusive que considera essa obra como o trabalho de sua vida.

Ao analisar as poucas líricas que constroem as plurais e múltiplas camadas de som que traçam o caminho de Hi… a Fim é possível entender que o ser ambientado no universo de Monument For Nothing percorre diversos sentimentos que uma personagem que enfrenta uma grande fase de questionamento de tudo e todos está passando. É um álbum que acalma, faz tremer, assusta, desespera, dá rizo, gozo, graça, choro e tudo junto ao mesmo tempo.

Segundo o faixa-a-faixa do artista, as vozes claras aparecem no momento da parte final do álbum, a partir de Nublado, pois alí finalmente se tem alguma noção do que é inteligível e compreensível, ainda que seja de forma muito escassa. E vale destacar de forma clara, pois a participação de Juçara Marçal na faixa que dá nome ao álbum e na sucessora Breeze ASMR aparece nos vocais de ambas as faixas, mas de uma forma que "diz muito sem dizer nada".

Pode parecer denso, pesado e de difícil deglutição, mas sensível é a única palavra que entenderia bem todo o esmo norteado do álbum, pois é explorando cada canto da sensibilidade humana que a obra consegue traduzir mesmo que com poucas palavras o conjunto de sentimentos que permeiam a quarentena.

Como se fosse o último trabalho de sua vida, Cadu Tenório entrega a público seu trabalho mais completo, sensível e certeiro ao descrever o sentimento alimentado por um futuro de incógnitas, que fala de um processo que percorreu tudo para acabar [talvez] em um nada.