Prestenção: Austra - HiRUDiN

resenha por: Roma

HiRUDiN
Austra
Ano: 2020
Selo: Domino
Auge: Risk It, It's Amazing, Anywayz


Hirudina, segundo o Wikipédia, é "uma substância anticoagulante produzida pela sanguessuga utilizada em medicamentos que são capazes de dissolver coágulos sanguíneos". E sem saber do significado da palavra até então, é interessante saber como me aproximei do álbum mesmo sem ter entendido em primeiras audições que ele seria meu antídoto por alguns instantes.

É inevitável ouvir sobre a hirudina e não pensar na eritrocitose, um distúrbio sanguíneo que, a grosso modo, aumenta a produção de glóbulos vermelhos fazendo o sangue ser mais viscoso e consequentemente de circulação mais lenta e difícil.

Dado que a sina deste projeto ocular de lançamentos musicais é a de experienciar a audição de um álbum e não de ser uma enciclopédia de medicina e biologia, atentemos às relações metafóricas que Katie Stelmains carrega em seu quarto álbum de estúdio sob o nome de Austra.

Assim como a mesma disse em sua carta de apresentação para a Apple Music, todos os seus trabalhos parecem caminhar em direção oposta a seus últimos lançamentos. E quando colocamos HiRUDiN ao lado de seu antecessor Future Politics(2017, Domino) sentimos que ao contrário de uma produção praticamente solo do álbum de 2017, seu novo trabalho conta com um time de muitas pessoas e com abordagens muito mais densas.

Das palavras da artista letã-canadense, o álbum que primeiramente tinha como intenção apresentar uma narrativa linear sobre um relacionamento tóxico do qual a personagem se livra e encontra um caminho de liberdade e esperança, sofreu influências ao longo de sua produção e se findou contando uma história cíclica que se repete incansavelmente sendo respaldado por camadas sonoras que misturam o lírico e o eletrônico.

Abrindo o álbum com Anywayz que escancara um término de relacionamento em versos como "Você me deixa com muita raiva/ eu te amo/ eu te amo [...] Mas e se a gente não? E o mundo continuar a girar de qualquer forma/ E as flores desabrocharem de qualquer forma/ E as montanhas se erguerem de qualquer forma" falando sobre o mundo continuar seu status quo mesmo sem esse relacionamento nada saudável, a artista inicia a narrativa sobre momentos que já enfrentou.

E o álbum segue contando uma história aparentemente muito linear, falando sobre como a personagem gostaria de ter vivido coisas que agora são passado, entrando em momentos pessoais que relatam os problemas que teve com a família de sua ex-companheira por se identificar como uma pessoa queer e ao fim da primeira parte entendendo que mesmo com medo o melhor a se fazer é se livrar desse relacionamento.

A segunda parte, que começa logo após Interlude I trata sobre uma personagem deveras esperançosa mas ainda insegura sobre possíveis recaídas e com medo do futuro incerto. Mesmo assim relata um processo de crescimento ao entender que o período de desintoxicação é necessário para que se encontre uma força e coragem para essa nova fase pós relacionamento, fechando essa parte nas letras de I Am Not Waiting que dizem: "eu não estou mais esperando por você/ você teve avisos que simplesmente ignorou/ … eu superei você".

Quando tudo parecia ter um final e o álbum parecia caminhar a sua conclusão, Austra abre um novo interlúdio para apresentar a sua faixa derradeira Messiah, onde ela se reconhece como um ser humano propenso a falhas e erros e pede para que tudo que a colocou no alto a ponha no chão: "talvez haja falhas, as palavras podem estar quebradas/ apesar disso me dê sua mão/ eu não te levantarei mas posso te guiar/ serei sua sombra e você será luz/ um equilíbrio irá se instaurar entre nós/ você será o corpo e eu a coluna cervical" fechando o álbum sem amarrar nenhum nó, justamente para deixar em aberto uma história que possa vir se repetir.

Muitas das letras segundo a artista saíram de forma muito natural e rápida, caminho que vai totalmente oposto ao que o álbum proporciona, por ser de uma audição delicada e por se tratar de assuntos que demoram a serem digeridos. Voltando as metáforas clínicas inicialmente destacadas, pode-se dizer que o entendimento da ciclicidade da vida serve quase que como um acalentador de sofrimento que por mais que seja diminuído ou facilitado estará sempre presente. HiRUDiN é um mitigador ao invés de um solucionador.

Assim como uma substância anticoagulante Austra faz um relacionamento tóxico descer mais fácil mas ainda ser presente na circulação sanguínea em um álbum que fala de términos mas também de recomeços.