Prestenção: Fiona Apple - Fetch the Bolt Cutters

resenha por: Roma

Fetch the Bolt Cutters
Fiona Apple
Ano: 2020
Selo: Epic
Auge: For Her, Ladies, Relay


"Pegue os alicates!", uma tradução livre ao nome do álbum, é a frase dita por um personagem da série The Fall ao encontrar cadeados trancando um quarto onde uma garota era torturada. E é nesse contexto de prisão, libertação, sofrimento, força e quaisquer outros sentimentos que você possa pensar e encontrar que tomamos como assunto o nascimento de um clássico.

O quinto trabalho da cantora e compositora Fiona Apple nasce depois de uma longa espera de oito anos, dando continuidade ao legado do íntimo e sensível The Idler Wheel Is Wiser Than The Driver of The Screw And Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do(2012, Epic) para agora falar em meio a um pop cru e etéreo sobre as principais reflexões que esse momento de aprisionamento e questionamento do que é liberdade podem causar.

Mesmo sendo pontual, direto e coeso aos dias que enfrentamos, se engana quem pensa que a pianista norte-americana correu compor um álbum para o momento atual. Segundo a mesma, o trabalho apresentado em Fetch The Bolt Cutters começa em 2015 e se estende até março deste ano.

Composto, gravado e produzido de forma totalmente caseira, com softwares de produção musical que nem mesmo a artista tinha muita familiaridade, talvez o álbum entre em ressonância com o atual momento por falar das principais facetas que um sujeito pensante encontra quando se vê solitário.

Na apresentação da obra a própria cantora explicita que a frase que estampa o álbum faz alusão à libertação de alguma situação desagradável em que alguém possa estar enfrentando. Os pensamentos que aprisionam o eu lírico perpassam a obra toda tangendo assuntos nada suaves como amores não correspondidos, bullying e até mesmo estupro.

E nesse processo criativo de trazer reflexões que afloram em momentos de reclusão, a casa se torna a principal base do projeto por ser o lugar onde ao mesmo tempo que as pessoas se encontram aconchegadas é também o lugar onde a gente se isola para enfrentar as piores fases. "A casa é o microfone, a casa é o ambiente, a casa é um membro da banda." disse em entrevista à NPR.

Diferente de outros textos que você leitora já se deparou aqui no site, no caso da genialidade de Apple que para nós é, além de compositora, poetisa, citar alguns trechos jogados de suas músicas para mostrar o quão impactantemente são abordados os assuntos te deixaria carente do sentimento que essa audição pode te trazer.

A presença de elementos sempre marcantes na carreira de Fiona como sobreposição de voz, piano, arranjos crus, simplistas e que já inseriram e inserem barulhos como o de chuva, de crianças brincando num pátio, cachorros latindo, dentre outros, fazem da criação algo muito mais orgânica e muito menos pré formatada, fazendo do processo simplista algo essencial e necessário.

Através de trava línguas, jogos de palavras, brincadeiras com ritmos, replicação de vozes, descompassos, barulhos corporais e ambientais e diversas outras sonoridades, o que mais impressiona, ou melhor, questiona, é a forma de se postar uma obra tão tocante sem a necessidade de se recorrer a arranjos complexos e altas produções. E de uma forma tão concreta que a ausência dessa complexidade nem é colocada em questão.

É fato que a crueza de acontecimentos nunca foi algo totalmente bem digerido pelas diversas pessoas que os enfrentam e os recebem. Mas da mesma forma que coisas cruas demoram para digerir, Fiona Apple faz de seu novo trabalho um clássico que ficará no estômago por muito mais do que pouco tempo.