Prestenção: A Outra Banda da Lua - A Outra Banda da Lua

resenha por: Raul

A Outra Banda da Lua
A Outra Banda da Lua
Ano: 2020
Selo: Under Discos
Auge: Cavalaria, Carrim de Picolé, Lua.


Certas músicas são como a abertura de uma caixa de fotografias. Ao botar pra tocar o homônimo e primeiro disco d’A Outra Banda da Lua, transporta-se para uma imagem daquela velha foto de família que você não sabe de onde todos ali vieram, mas ainda sim, soa familiar e misterioso. E como é ver uma antiga foto nos dias de hoje? Olhando para as 10 composições do disco, pode se dizer algumas palavras e sentimentos em direção a essa pergunta: ressignificações, tradições, afetos e raízes. Distante em soar antigo, muito pelo contrário, se encontra no que há de mais forte e potente nessa busca.

A Outra Banda da Lua é uma banda do norte de Minas Gerais, Montes Claros, formada em 2015 e composta por André Oliva, Edson Lima, Marina Sena, Mateus Sizilio e Matheus Bragança. Como qualquer definição é incompleta por si só, podemos dizer que o som do grupo é um rock rural, que flerta com a psicodelia, com o regionalismo, com o afrobeat, o jazz, e que logo nos primeiros minutos se pode notar as diversas referências musicais presentes. Ainda que se debruçam num som bastante regional é extremamente universal nas referências que apontam.

Somos introduzidos na abertura aos versos: “Partiu meu Brasil Guarani/ Pro alto vamos cantar/ Partiu Montes Claros bonita/ Pro alto vamos lutar/ Com a flor e com o maracá/ Com a flor e com o amor”, fincando os pés em um solo bastante terroso com a fúria de guitarras e percussão. Quando o grupo canta sobre a terra, reafirma-se suas referências e origens, mas cantar sobre a terra para o grupo mineiro é também um grito de luta frente às constantes ameaças ao patrimônio ambiental. Resistência e tradição seguem ao longo disco, como na faixa seguinte, Desentoado, um cover de Tino Gomes e Charles Boavista, que apresenta um forte coro: “Eu sou fruta do Norte/ No curral, sou boi de corte.”

As canções em sua boa parte, apresentam refrões fortes, letras curtas e um trabalho minucioso nos arranjos, com longos solos instrumentais, bebendo da fonte do experimentalismo em momentos que remetem à Tropicália e a Novos Baianos e faz do disco, uma representação muito latinoamericana. Esses momentos longos dos arranjos permitem uma abertura de uma experiência sensorial, que faz conectar com a terra e a natureza que existem dentro de si, um lugar ensolarado e dançante, mas que em outros momentos também se ligam ao introspectivo em passagens mais poéticas, como em Lua: ”Nem sei se vou dormir agora que eu descobri o amor/ Só quero velejar e ver que o mar sorri ao ver a Lua.”

Terrestre ao mesmo tempo místico, A Outra Banda da Lua festeja suas raízes e o trabalho coletivo numa celebração da música brasileira em suas inúmeras possibilidades.