Prestenção: Rina Sawayama - SAWAYAMA

resenha por: Roma

SAWAYAMA
Rina Sawayama
Ano: 2020
Selo: Dirty Hit
Auge: XS, STFU!, Dynasty


"As pessoas têm uma mania de apontar pras novas artistas e dizer 'você vai ser a nova Adele', 'essa pessoa vai ser a nova Janet Jackson' mas aí quando olham pra mim pra mim elas dizem 'hmm.. você quer ser a nova…?'.". E através dessas palavras para uma entrevista à revista i-D feita há dois anos, Rina Sawayama já traçava aquilo que a fez explodir como um dos maiores nomes do pop da nova década: a unicidade.

Para muita gente a cantora japonesa-britânica foi uma descoberta desse ano, mas a verdade é que a ela vem sendo bastante comentada desde sua estreia com o aclamadíssimo EP Rina (2017) fazendo com que seu primeiro álbum, SAWAYAMA, entrasse pra lista dos mais aguardados de 2020.

E felizmente a espera não decepcionou. O lead single STFU! traz uma sonoridade bem aquém da cena atual e já deixou o terreno preparado pra mostrar que além de uma estética consistente ela também traria experimentações inovadoras fazendo o pop da primeira lista tomar uma nova roupagem.

O álbum todo fala principalmente sobre os conflitos que a jovem enfrenta de ser uma japonesa que viveu praticamente sua vida toda em Londres, desenrolando ao longo das treze músicas suas crises de identidade e reflexões sobre a vida de uma pessoa de nacionalidade dupla.

Logo na maravilhosa faixa de abertura Dynasty conseguimos entender esses questionamentos do conflito de duas culturas tão diferentes: "estou perdida/ na escuridão desse mundo/ me pegue antes que eu caia/ salvar a mim mesma/ é tudo que eu realmente quero/ e eu notei que isso já foi feito antes". E ao mesmo tempo que a cantora fala do tradicionalismo do Japão ela também cita pautas como o consumismo exacerbado de bens supérfluos que ela provavelmente veio perceber na vida britânica.

O mais interessante de todo esse trabalho é a linearidade com que são postos os assuntos. Começando numa crise existencial, o álbum avança falando sobre conflitos entre o tradicional e o moderno, a saudade das origens, os bons momentos vividos em Londres e o reconhecimento de que hoje tendo toda uma vida no Reino Unido é complexo conseguir incorporar a identidade japonesa em suas músicas. Rina inclusive explicita isso em Tokio Takeover, faixa bônus que teve lançamento exclusivo no Japão.

O álbum caminha numa corrente contrária a revisitação do pop oitentista que é algo que marca as produções desse ano e bebe muito de estilos como o R&B e o Nu Metal. As linhas pesadas de guitarra nos momentos mais agressivos ou a solidez dos baixos nos momentos mais dançantes fazem o trabalho soar muito próximo do público mainstream mesmo que a produção seja algo fora do atual comum.

É importante pontuar que Rina embora esteja com um som diferente do que vem sendo apresentado por The Weeknd, Dua Lipa, Charli XCX e Lady Gaga ela está bem próxima das produções que acompanham esses artistas. Além de ter começado sua carreira com um forte envolvimento na cena da PC Music, produtores como Danny L Harle (Caroline Polachek - Pang, 2019) assinam algumas das faixas.

E estar nesse meio talvez tenha aproximado a jovem cantora e compositora a esse patamar de famosos. Em uma divulgação de Comme des Garçons (Like the Boys), música que fala sobre masculinidade, o remix com a presença da drag queen Pabllo Vittar com certeza colocou SAWAYAMA na lista de muita gente que nem a conhecia.

Sair de um mundo onde os papéis e culturas são minuciosamente bem definidos e viver sua vida numa cultura onde basicamente é cada um por si, além de trazer grandes conflitos sobre a construção de uma identidade, serviu de alicerce para Rina Sawayama construir uma das melhores obras pop do ano.