Prestenção: Porridge Radio - Every Bad

resenha por: Raul

Every Bad
Porridge Radio
Ano: 2020
Selo: Secretly Canadian
Auge: Lilac, Don’t Ask Me Twice, Long


“Obrigada por me deixar/ Obrigada por me fazer feliz”, quantas contradições podem morar nessa frase? Talvez não seja nem o caso de contradição, mas sim as inúmeras visões que se pode enxergar sobre uma relação e um sentimento. A faixa de abertura Born Confused faz a gente pensar sobre olhar com maturidade para um acontecimento ao mesmo tempo que o desespero parece bater na porta quando algo se aproxima do fim.

Porridge Radio é uma banda britânica formada em 2015 e encabeçada por Dana Margolin que conta com Maddie Ryall, Sam Yardley e Georgie Stott. Every Bad é o segundo disco de estúdio do quarteto, sendo eles um dos nomes exponenciais do que chamamos de um som pós-punk; que usa de letras e arranjos mais introspectivos e experimentais sem deixar de lado a presença de fortes vocais e as guitarras estralando.

O mais novo registro parece por uma lupa sobre a cobrança dos outros e de nós para conosco, diante das contradições humanas. Talvez a característica mais predominante é a frequência com que versos são freneticamente repetidos em quase todas as faixas e isso revela em como a repetição pode servir de mantra na crença de uma resolução ou aceitar a presença da vulnerabilidade. Temas como a não reciprocidade de um amor, relações tóxicas, descobertas e fragilidades constroem uma narrativa que traçam um caminho coerente duma persona que visivelmente busca algum caminho, ainda que possa ser nenhum.

Em Sweet, a voz rouca de Margolin é direta ao apontar as profetizações maternas: “Minha mãe diz que eu pareço um desastre nervoso/ Porque eu mordo minhas unhas até a carne.”, e o refrão não cansa em repetir que ”Sou charmosa, sou doce/ Você vai gostar de mim quando me encontrar”, é aquilo que Caetano Veloso nos diz: ”cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.” E a jovem que canta estes versos sabe bem o lugar que ocupa, o que faz de Every Bad um disco extremamente sincero ao cantar suas cicatrizes ainda abertas, mas que não por isso desacredita de si. Essa dualidade também se mostra na sonoridade em que se percebe camadas de vozes mais leves ao fundo, adicionando uma vibe mais pop em alguns momentos, em contrapartida a euforia de gritos e ruídos que precisam ser ouvidos.

Preservando o que se espera ouvir diante de um punk, o posicionamento rebelde, a agressividade nos arranjos, o grupo transgride ao propor novas sonoridades na busca por experimentações que são referências para a vocalista, que vão desde Melodrama de Lorde, a melancolia de Sharon Van Etten e as produções de Charli XCX.

Através de camadas de guitarras, de bateria e violino, Porridge Radio entrega um disco energético e que propõe uma experiência avassaladora ao investigar o caminho da autodescoberta que é atravessado por sentimentos que mostram beleza, mas também a face dolorosa de toda jovem de vinte e poucos anos.