Prestenção: Kiko Dinucci - Rastilho

resenha por: Raul

Rastilho
Kiko Dinucci
Ano: 2020
Selo: Independente
Auge: Olodé, Foi Batendo o Pé na Terra, Febre do Rato


Confesso que logo de primeiro momento, diante de Rastilho o novo disco de Kiko Dinucci, fui tomado por duas questões bem particulares: a primeira, tive que recorrer ao significado da palavra rastilho, admitindo ter esquecido sua definição. E a segunda; a belíssima capa em tons pastéis que diretamente me levou aos versos de Di Melo cantando em Kilário - o seu grande sucesso: ”Ai, ai, meu Deus do céu, quanto eu sofri/ Ao ver a natureza morta”.

Frutas, flores e legumes secos, retratam a imagem de uma natureza morta, aqui literalmente morta sobre a mesa, se deteriorando e tomada pelos fungos. O quadro revela seu oposto: algo não está vivo. Apodrecido, tomado pela força da natureza. E o título no entanto, significa um fio ou material semelhante, revestido por pólvora, como um pavio. Acende na base, queima no percurso e explode no fim. Numa entrevista importante do lançamento do disco, Dinucci também revela que rastilho “é o ossinho do violão, que segura as cordas no cavalete”.E logo de início me faço questões bobas, há quanto tempo estes alimentos apodrecem sobre a mesa? E quando virá a explosão?

O conjunto de elementos, a capa, os títulos das canções e o título do disco se uniram de maneira bastante orgânica, e que, ao longo da produção foram se encontrando. E assim também é a experiência (sim, certos discos numa escala maior, são como uma experiência sensorial) de Rastilho; uma procura, que a cada audição se descobre um novo significado, uma textura diferente, uma nova poesia.

O segundo disco do músico surge da vontade em compor um “álbum de violão”. Durante seus mais de trinta minutos, têm-se esse popular instrumento da música brasileira como protagonista. Somado ao nosso imaginário dos sons que nos remete quando se fala de violão, se soma o grande mérito do disco que é a busca do que o próprio instrumento pode revelar para além de nossos ouvidos treinados. Desse modo, trabalhando basicamente com violão e vozes ao longo do registro, o som do violão se expande em suas inúmeras possibilidades, soando místico e profético, ao mesmo tempo que as brutas cordas soam regionais, interioranas e extremamente urbanas.

Nas primeiras faixas Exu Odara e Olodé têm-se a nítida presença das referências ao candomblé, e que depois percorrem pelo afro-sambas, à regravações de importantes músicas regionais como Vida Mansa e Tambú e Candogueiro. O disco soa em alguns momentos (Marquito) como a abertura de algum filme do cinema novo numa cena inicial e panorâmica, ao passo que levanta a poeira do concreto em músicas que soam mais urbanas e caóticas como Febre do Rato que apresenta um tom roteirístico ou pela participação de Rodrigo Ogi em Veneno, ambas canções em que há a maior presença da voz.

E depois de muito ouvir as composições, me volto às perguntas aqui levantadas inicialmente, e penso que a explosão é tempo, assim como a matéria embolorada também é questão de tempo. Seria limitante dizer que Rastilho é um disco político por estar condizente com questões do Brasil atual. Claro, também é por isso. Mas também político pelo uso do instrumento e por propiciar na ouvinte uma experiência que é uma quebra de conceitos tão cristalizados. Pois, “quem canta é a madeira“, como o próprio artista coloca.

Áspero assim como a sonoridade da palavra rastilho, o novo disco de Kiko Dinucci é uma referência ao violão e um exercício criativo e reinventivo, buscando preservar e experimentar a sonoridade através desse caminho-explosão.