Prestenção: A Trupe Poligodélica - A Transmutação do Eco em Lenda

resenha por: Roma

A Transmutação do Eco em Lenda
A Trupe Poligodélica
Ano: 2020
Selo: Bosque, Tratore
Auge: Eu Só Pt. 1, Noturno, Raylander


Embora pra muitos leitores essa possa ser a descoberta de um grupo novo de artistas, A Trupe Poligodélica é bem direta ao falar de assuntos bastante conhecidos como o relatado em Desilusão de um Chofer de Trio Elétrico: "Foi como num carnaval/ bem no final/ quando fica um vazio nas ruas/ e os copos descartáveis no chão.".

Apenas numa sensação de melancolia e solidão em meio ao silêncio ensurdecedor que só o pós momento de extrapolação daquilo que se é e não é permitido durante uma festa pagã como o carnaval, é que o indivíduo reflete sobre as relações e relacionamentos que ele constrói interna e externamente. Sob o esses e muitos outros versos que o grupo do Vale do São Francisco constrói o ambiente de seu primeiro trabalho.

A Transmutação do Eco em Lenda foi, acima de um álbum, um projeto construído através de financiamento coletivo. E o coletivo não se faz presente somente no momento de financiamento do álbum como também é muito forte em toda a sonoridade da qual ele é composto. O neologismo "poligodelia" inclusive, vem de, segundo a banda, uma mistura de sons e ritmos que vai além da psicodelia.

E bem como o nome do grupo, o nome do álbum perpassa esse processo de misturas ecoando entre o blues, o samba, o rock psicodélico, o brega, o afrobeat e muitos outros estilos criando uma sonoridade coesa que amarra todo o álbum no ambiente criado para o eu lírico: um ambiente de reflexão e devaneios.

São pensamentos em cima de temas como a definição da própria identidade, da dependência criada em relacionamentos que atingem tanto indivíduos como matérias (e nesse caso explicitamente matérias tecnológicas) e da oscilação entre liberdade e prisão, que são escritas as nove letras desta obra.

É interessante notar a ligação entre elas não só em momentos triviais como em Eu Só partes 1 e 2, mas em trechos que as linhas de raciocínio consolidadas em versos como o de Meu Painho HD: "Meu computador/.../armazenador de bichos/bebedor do que eu vomito/.../cuidador dos meus cuidados/ és quase pai dos meus filhos." se conectam – literalmente – em versos como o de Umbilical USB: "Como um corte no cordão umbilical/ me deixando livre pra correr/.../volta e meia eu tenho que lembrar/onde eu esqueci meu HD".

O que mais prende a atenção do ouvinte além dos arranjos muito bem encorpados é a genialidade de se utilizar de meios tecnológicos como metáforas das relações humanas. Se bem que nos tempos atuais onde as poucas conexões humanas restantes se resumem a intermédios tecnológicos, a metáfora acaba se transmutando em relato.

Seja o eco que tomou corpo pra virar lenda ou seja a tecnologia que tomou corpo pra virar relação. Na era do encurtamento do tempo e das distâncias, a estréia do grupo Trupe Poligodélica te sacode pra acordar, derreter, desacelerar e refletir sobre os rumos das relações.