Prestenção: Yves Tumor - Heaven to a Tortured Mind

resenha por: Roma

Heaven to a Tortured Mind
Yves Tumor
Ano: 2020
Selo: Warp
Auge: Kerosene!, Strawberry Privilege, Medicine Burn


Pra quem acompanha o trabalho de Yves Tumor sempre se surpreende ao encontrar um experimentalismo bem forte em suas músicas a ponto de constantemente se lançar a adicionar elementos de diferentes gêneros musicais a cada álbum, mas ainda assim de forma que o trabalho como um todo sempre soe coerente.

Em seu mais novo álbum o cantor e compositor americano se aprofunda num universo do rock setentista que flerta com o art rock e com camadas de psicodelia para falar de uma obra que se pauta em indagações do eu lírico sobre uma história romântica (ou talvez nem tão romântica assim rs).

Ao longo das doze músicas que são apresentadas no álbum que conta com a produção de Justin Raisen, ao se tomar uma certa atenção às letras, é possível construir com facilidade uma narrativa cuja personagem tenta resolver conflitos internos sobre estar ao lado de alguém que ama por motivos que se penduram na linha tênue entre a insegurança e o perigo.

Todas as letras fazem o ouvinte ficar com uma interpretação dúbia dentro da mente bagunçada dessa persona pois as composições nunca explicitam o motivo do distanciamento entre quem fala e quem a pessoa que fala ama.

Logo nas primeiras frases de Gospel For a New Century ao meio de intensas linhas de baixo e num soul retrô, esse ser lírico apresenta a história dizendo que "Eu acho que consigo resolver isso/ eu posso ser seu tudo não há problema nisso, baby/ você pode ser mais, mas é sem coração/ mas eu já resolvi isso" numa música que fala sobre os esforços de se manter uma relação que aparentemente não há mais o porquê de ser mantida.

Na segunda faixa, Medicine Burn, o esforço vira súplica, e a personagem se mostra inteiramente vulnerável e com medo da solidão com frases como "Eu não sei lidar com meus próprios problemas/ não temo nada exceto o deserto [...] me carregue para seu espírito".

E é brincando com elementos como a água, o fogo e o espírito que Tumor cria uma personagem que oscila entre momentos de empoderamento, de insegurança e de medo, e descreve metaforicamente essa tentativa de se manter um relacionamento que o motivo do fim fica a cargo do ouvinte.

Importante de se observar que dada a atmosfera caótica que o próprio nome do álbum te cria expectativas, os arranjos sempre acompanham o sentimento da personagem indo de músicas de ambientes mais pesados nos momentos de medo e inquietação a músicas mais leves e "respiráveis" nos momentos de indagações e reflexões, criando uma linha interessantemente tortuosa para a obra.

Heaven to a Tortured Mind conta com participações de artistas como Diana Gordon na profunda e intensa Kerosene! que traz um casamento de timbres vocais que com certeza marca esse início de ano, e também com a presença de Kelsey Lu e Julia Cumming que fazem muito bem o papel de leveza em meio a um álbum que fala de uma mente conturbada.

Contando uma história com começo, meio, mas não necessariamente fim, o mais novo álbum de Yves Tumor te afunda num universo conturbado e incômodo pra questionar até onde é válido se entregar por algo que não tem mais motivos para acontecer.