Prestenção: cavalona peçonhenta - peçonhenta

resenha por: Roma

peçonhenta
cavalona peçonhenta
Ano: 2021
Selo: Independente
Auge: ão, sofisma, véu de teresa


Se você é do tipo de pessoa que já tentou desbravar o mundo da música fugindo da rota comum de divulgação de artistas provavelmente você tenha se assustado com a pluralidade de sons e artes em que o mundo independente é composto.

Para tudo sempre há uma primeira vez, e a primeira vez de muita coisa nem sempre é confortável. Quando não se há costume as sensações de experiências estreantes sempre são associadas a desconforto, estranhamento, incômodo e até repulsa. Entretanto, quando se pensa sobre arte e suas manifestações, é sabido que nunca a arte se colocou ao mundo com o propósito de única e exclusivamente causar prazer e entretenimento às pessoas.

É através do incômodo e da provocação que peçonhenta, trabalho da multiartista Yuri Espósito sob o nome de cavalona peçonhenta se coloca ao mundo. Nas palavras da própria artista, o álbum vem de um encontro num lugar inexistente, de onde os ouvidos se abrem para novas possibilidades.

Produzido desde 2016, a ouvinte, se mais ambientada, pode encontrar familiaridade nas sonoridades de trabalhos como de Diamanda Galás, Tetê Espíndola e Tanya Tagaq. Elementos sonoros que costuram ritmos como o da Música Abstrata, o Illbient e o No Wave.

Desse lugar de experimentação, Cavalona recita poemas próprios que são críticas nada sutis a temas que vão da exploração de corpos pelo capital ao superpoder do cristianismo, necessária e não necessariamente interligados e dependentes.

Com a participação de outres artistas (Kacire, Elis Moraes, Xãtana Xãtara e Adelaide de Estorvo) que também trabalham a manifestação de forma diferente do que a zona de conforto promove – uma vez que essas pessoas nunca habitaram zonas confortáveis – Peçonhenta é o tipo de desconforto que grava-se na memória em longo prazo, fermenta no estômago e demora para ser digerido.

peçonhenta é um álbum de longo efeito. Não tenha pressa. A arte não tem pressa e pressa é um conceito criado pelo Capital. O desconforto e o incômodo sempre estiveram por aí e o grande feito dessa obra é colocá-los nitidamente na sua frente.