Prestenção: Juliana Linhares - Nordeste Ficção

resenha por: Roma

Nordeste Ficção
Juliana Linhares
Ano: 2021
Selo: Independente
Auge: Meu Amor Afinal de Contas, Nordeste Ficção


No dia 22 de janeiro deste ano (2021), a revista Veja nomeia São Paulo como a capital do Nordeste. A infeliz chamada supostamente deveria ser lida como uma homenagem ao povo nordestino, mas apenas fez manutenção a estrutura esteriotipada de que São Paulo, bem como a região Sudeste, serve de terra prometida para um povo visto como submisso.

Enquanto moradores de um país continental, uma vez construída a essa ótica de que São Paulo é capital para além de si mesma, cria-se também o imaginário de que tudo que o rodeia é periferia. O que é distante do centro se torna marginal. Na ótica paulistano-centrada o Nordeste é margem.

Na contramão deste pensamento, ao viver grande parte de sua vida mais próxima deste centro, Juliana Linhares, artista potiguar, vivenciou de perto o imaginário sudestino que além de colocar o Nordeste num lugar de subestimação, pinta um povo nordestino totalmente distante da realidade.

“Deixa que eu mesma decido que rainha sou eu” é uma das frases que abrem Nordeste Ficção, e soa como um grito ou até mesmo uma súplica de que a pessoa que ali fala se cansou do lugar de subordinação ao qual sempre foi forçada a estar.

Juliana nos pega pela mão da forma mais didática possível e nos leva passear pelo Nordeste de ritmos. Do frevo ao forró, da lambada ao baião, a mescla de vertentes presentes nas onze músicas do álbum discutem e problematizam essa figura nordestina criada na ótica sudestina de forma real, pouco eufêmica e nada romantizada.

É na inspiração vinda da leitura de "A Invenção do Nordeste e Outras Artes" (Durval Muniz de Albuquerque Junior) que Juliana Linhares monta um universo de questionamento. Afinal o que é o Nordeste e o que define um nordestino? São conceitos que precisam ser revisitados ou que devem retomar suas raízes? É uma realidade ou uma ficção?