#PCDMV: Lorde - Pure Heroine

resenha por: Isabela "Pétala" Alcântara

Pure Heroine
Lorde
Ano: 2013
Selo: Universal
Auge: World Alone, Buzzcut Season, Ribs


A mágica do mais do mesmo

Cotidiano: que acontece diariamente; que é comum a todos os dias; diário, segundo o dicionário. O hábito, o automático, por muitas vezes se passa despercebido da memória e do afeto, mas quando perdemos o que era conhecido por nós todo dia, aprendemos a apreciar e nos sentimos nostálgicos." Eu me sinto crescida com você no seu carro / Eu sei que isso é meio besta". A arte de rever o mundano e achar beleza nele, é um sentimento compartilhado por livros como Mulherzinhas, de Louise May Alcott, por nós, com saudades do mundo como era antes, e de Lorde, refletindo sobre a adolescência monótona de sua cidade natal na Nova Zelândia, em um disco que transforma o tédio em mágica no disco Pure Heroine.

Em 2013, estava no auge dos meus 15 anos, e metade do que Lorde estava experienciando em sua adolescência, eu só ouvia falar sobre, hoje, com quase 22, tenho nesse disco uma espécie de diário que possui a habilidade de traduzir tudo que não fui capaz de colocar em palavras.

Conversando recentemente com um amigo sobre o que nós estamos sentindo nesse momento de isolamento social, concluímos que não são exatamente os grandes momentos da vida que mais doem de saudade, e sim, chegar em um amigo e exclamar: “Você não sabe o que aconteceu!”, e contar um relato engraçado, mas com certeza mudando, um detalhe em um dia, que vai se tornar uma história que irá render risadas e se tornará, um dia, uma memória divertida de um tempo que não vai mais voltar.

Pure Heroine é um disco noturno, e em alguns momentos, um álbum que parece se passar no lado mais escuro de um pôr-do-sol, com um vento delicado batendo no rosto, as mãos ao redor das pernas dobradas, e um amigo ao lado. É um álbum que celebra o ato do crescimento, mas mais especificamente, o crescimento ao lado do outro, da mágica que acontece quando amadurecemos junto com alguém e trocamos experiências, visões, preocupações, conselhos, estratégias de resistência a macro tópicos como a política, ou conflitos familiares, mas também, compartilhar episódios de diversão, em que nenhum problema do mundo importa naquele momento. "Deixa eles falarem porque nós estamos dançando nesse mundo sozinhos".

Já um mês atrás, outro amigo me mandou a seguinte mensagem: se eu aceitaria vê-lo, tendo em vista que talvez fosse uma despedida, pois ele iria voltar para a casa dos pais por tempo indeterminado. Além de se tornar um convite amargo por perceber que poderia perder essa pessoa por perto, a mensagem me lembrou de algo que eu havia esquecido: o futuro existe. "Muito em breve eu pegarei meu primeiro avião / Eu verei as veias de minha cidade assim como eles fazem no espaço". A linha tênue entre nunca estar vivendo no presente, e ansiando pelo que pode ou não acontecer, também se confronta com o esquecer que momentos memoráveis podem acontecer no futuro, mesmo ele sendo incerto, principalmente agora.

A saudade do passado, os momentos preciosos do presente e o sonho do futuro, todas essas facetas estão capturadas em Pure Heroine melhor do que em qualquer disco que eu já ouvi. Não é apenas um álbum que apenas registra a juventude em certo tempo da humanidade, e sim, valoriza os tímidos sentimentos de euforia, decepção e descoberta que temos durante a vida, que nos moldaram para nos tornar as pessoas que somos, e perceber o quão diferente éramos, e que ainda há muita transformação na vida. Transformar alguém, e ser transformado, por interações, aventuras, decepções e noites em claro. No fundo, parece que nada dessa história vai ser o suficiente, mas são nos rastros dos nossos caminhos diários é que, como Dorothy e Lorde, conseguimos transformar pedras no caminho em tijolos amarelos.