#PCDMV: Jorge Mautner - Mil e uma Noites de Bagdá

resenha por: Raul

Mil e uma Noites de Bagdá
Jorge Mautner
Ano: 1976
Selo: Philips
Auge: Samba Jambo, Aeroplanos, Homenagem a Oxalá


Mil E Uma Noites de Bagdá (1976) é o terceiro disco de estúdio de Jorge Mautner. A obra do carioca sucede canções de sucesso como Super Mulher, de Para Iluminar a Cidade (1972) e Maracatu Atômico, do homônimo disco de 1974. Os dois álbuns ao longo dos anos foram os mais elogiados da discografia de Mautner, o que faz de Mil E Uma Noites de Bagdá um registro menos comentado, mas longe em ser menor.

Quando se fala em Jorge Mautner surge em nosso imaginário aquela voz rasgada inconfundível, as onomatopéias que lhe mostram uma característica bastante performática, e claro, ao experimentalismo, sendo ele próximo do Tropicalismo, ainda que o exílio tenha o impedido em estar lado a lado de forma concreta. No entanto, em Mil E Uma Noites em Bagdá, Jorge que até então vinha trabalhando com seu fiel parceiro Nelson Jacobina, se une a Perinho Albuquerque - importante arranjador de trabalhos de sucessos com Caetano, Gal e Maria Bethânia - na tentativa, por meio do desejo da gravadora, em Mautner soar mais radiofônico, o que de fato marca uma outra sonoridade na discografia do músico.

Portanto foi um disco feito sob a pressão para emplacar. E o que é sucesso ou não é sucesso, são questões que perpassam desde o início de sua carreira, sendo desacreditado e taxado como não popular por seu aspecto inovador e experimental. O tiro parece ter saído pela culatra, vindo que Mautner naquele momento não se popularizou e muito menos entregou um disco que tivesse “o som do mercado”, ainda que mais radiofônico em comparação aos demais registros, seguiu revelando suas imprevisibilidades.

Durante as 12 faixas estamos diante de um repertório bastante diverso em sua temática. A primeira faixaHomenagem a Oxalá é um exemplo da retomada da cultura negro-brasileira como fonte primária de inspiração: “Do jeito que o mundo anda/ Ele precisa de fé/ Ouve o grito de Umbanda/ E também do Candomblé”. Junto com a canção seguinte Rainha do Egito , formam uma abertura pro disco bastante dançante, carregada de percussão, backing vocals e a voz em primeiro plano.

Para além da defesa de um sincretismo cultural, e sobretudo religioso, há uma defesa da liberdade, importante bandeira que Mautner sempre levantou: ”Posso te beijar agora/ Pro zig zag poder ir embora/ É a barra pesada que está chegando.”, canta nessa segunda faixa, por meio de uma narrativa metafórica e bem-humorada diante de um possível cenário de opressão, o que no caso, pode-se pensar diretamente a uma reflexão sobre o cerceamento advindo do golpe de 64. Outra sonoridade muito presente é o samba, aqui de uma maneira bem tradicional sonoramente, através do brilhantismo da canção Samba Jambo: “Eu me encosto nesse poste/ À sombra da bananeira/ E por mais que eu te goste/ Você não vê minha bandeira/ Iê, iê, iê/ Iô, iô, iô/ Seus olhinhos sempre têm, meu bem/ Aquela luz da aurora da manhã”. Trata-se de um samba alegre e curto, focado no refrão, mas que revela uma crítica ao movimento do “Iê-iê-iê” - o rock’n’roll brasileiro dos anos 60 - que por muitas vezes foi questionado por um não posicionamento político.

Características predominantes de sua obra, aqui também se encontram: o caos, a inquietação, seja pelas letras que apontam para vários lugares e ao mesmo tempo para nenhum, que revelam um artista contraditório e múltiplo no melhor uso do expressão, ou pelas inúmeras sonoridades que vão desde o samba, cantos de candomblé a canções românticas, como na poética Aeroplanos: ”Você faz tantos planos/ Fica voando em aeroplanos/ Da imaginação/ Porque não faz o seu campo de pouso/ No aeroporto do meu coração”.

Essa multiplicidade vai em direção à aquarela pintada por Mautner em construir um Brasil a partir de um universo particular mas também universal, que é ufânico, cênico e irônico. Sendo ele O Filho do Holocausto de pais que desembarcam no Brasil fugindo do nazismo, criado dentro da cultura do candomblé por sua babá, o músico apresenta um caldeirão de experiências e referências, que tecem sua obra a partir da concepção do kaos-nacional e do nacional-kaos.

Mil E Uma Noites de Bagdá é uma das amostras da grandiosidade de Jorge Mautner através de um registro que mostra a multiplicidade sonora e temática de sua música. E não por acaso é seu projeto artístico e também um projeto de país.