Lista: Os 30 Melhores Álbuns Nacionais de 2020


Ninguém acreditou, mas chegamos ao final de 2020. E se algo que provou ser uma das coisas mais importantes para suportar todo o caos que foi esse ano, foi a arte. Quantas vezes aquele disco salvou seu dia? Ou fez acreditar em dias melhores? Botou pra chorar de vez ou pra dançar. A música segurou a marimba.

Marcado pelas incertezas, adiamentos de discos, cancelamentos de shows, o cenário para a música ficou imprevisto. Mas não foi suficiente para a elaboração deixar de acontecer, muito pelo contrário. A cena brasileira segue sendo uma das mais criativas e potentes mundialmente, principalmente quando pensamos sobre a versatilidade.

Nós do óia música selecionamos os 30 discos que mais nos marcaram, tornando-se destaques diante de tanto material bom que foi realizado durante esse ano. E claro, como toda seleção, existe sempre aquele disco maravilhoso que passou batido ou deixamos de ouvir, então deixamos claro a constante incompletude da lista.

30. Tatá Aeroplano - Delírios Líricos
Em seu sexto disco Delírios Líricos, Tatá Aeroplano apresenta uma profunda reflexão sobre a vida e seus sentimentos. Com a voz sempre muito marcante, as letras são entoadas por uma intensidade sentimental e arranjos que vão do violão, a baterias e percussão, sempre trabalhadas de maneira mais contida, criando um universo que soa místico e cósmico, características marcantes da obra do músico e que mantém de maneira bastante reinventiva.


29. A Outra Banda da Lua - A Outra Banda da Lua
Outra grande estreia de 2020, A Outra Banda da Lua com seu disco homônimo entregaram uma obra que transporta diretamente para o coração do regional. Com letras fortes e um trabalho minucioso nos arranjos, com longos solos instrumentais, o disco constrói uma sonoridade muito latinoamericana. Terrestre ao mesmo tempo místico, A Outra Banda da Lua festeja suas raízes e o trabalho coletivo numa celebração da música brasileira em suas inúmeras possibilidades.


28. Lau e Eu - O Futuro Está Distante EP
Em O Futuro Está Distante, Lau e Eu entrega um projeto que compõe um manifesto, um curta-metragem e o próprio disco, e usando das diferentes potências da linguagem constrói uma obra que coloca em questão a experiência da cidade ao lado dos desamores, frustrações e medos. O artista possui uma poeticidade muita aguçada ao falar sobre assuntos tão urgentes e que parecem banais e que somadas ao som meio lo-fi, experimental, entrega um trabalho riquíssimo para pensar sobre o tempo que vivemos.


27. Roseane Santos - Fronteiriça
O disco de estreia de Roseane Santos é daquelas obras que é difícil sair imune após o contato. Isso deve principalmente a carga poética tão densa e pelas letras e arranjos tão bem trabalhadas que dão sequência a longa carreira da cantora e musicista na cena curitibana. Fronteiriça é sobre atingir os espaços de conexão, estabelecendo uma narrativa que também investiga a memória ancestral como força de cura.


26. Julico - Ikê Maré
Em seu primeiro trabalho solo, o guitarrista e vocalista da banda sergipana The Baggios traz logo na capa a imponência das águas pra fazer um álbum que te guia como um rio que horas é calmo, horas é turbulento. Em meio a essas águas sempre em movimento, embebido do psicodelismo brasileiro, Julio estreia com um projeto marcante, refrescante e vivo.


25. Jonathan Tadeu - Intermitências
Sensível ao tempo que vivemos, Intermitências está atento as pequenezas do cotidiano que passam despercebidas. Como um sentar numa tarde de domingo, o disco constrói uma melancolia ao falar sobre questões muito humanas, como a expectativa do amor, a esperança de um futuro, ainda olhando pro passado e pro presente, o disco condiz com a ansiedade que permeia nossas vidas. Com sobreposições de vozes, teclados, guitarras, criando várias camadas, o disco é um convite atmosférico para questionar a nossa própria existência.


24. Ousel - Ousel
Pra você que gosta muito do noise rock das guitarras presentes daquela fase grunge dos anos 90/00, a estreia do grupo goiano se estrutura de forma muito coesa em um álbum de oito faixas muito bem feitas. Inicialmente um projeto que tinha como intenção ser focado nos instrumentais, traz com a voz de Roberta Moro o casamento perfeito da sonoridade intencionalmente distorcida. Ousel é um pássaro selvagem de regiões frias, o álbum, e a banda.


23. Wado - A Beleza Que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa
Com um vasto time de participações que tem nomes como o de Otto, Lucas Santtana e Zeca Baleiro, Wado abre mão das percussões marcantes nos seus trabalhos anteriores pra trazer uma ambientação de arranjos calmos e bem orquestrados para servir de base a letras agridoces e sempre muito bem refletidas.


22. Cadu Tenório - Monument For Nothing
Uma história com muito corpo musical e com poucas palavras que traz um questionamento sobre o que realmente são as coisas, matérias e/ou pessoas passíveis de valor. É sobre a construção de um projeto complexo que pode tanto ser o fim de tudo como também o início de algo ainda maior, mas é também, principalmente, uma compreensão sobre o que é, de fato, grandioso e o que é, de fato, nada.


21. Marcelo D2 - Assim Tocam os MEUS TAMBORES
Fruto do isolamento social, Marcelo D2 convocou uma galera para compor seu mais novo disco que trata-se de uma obra coletiva. Discutindo a situação política do país, mas ultrapassando seu próprio conceito, o disco é afiado ao falar sobre liberdade, ancestralidade e violência, se reinventando em participações e samples assertivos criando um disco em constante movimento.


20. Josyara, Giovani Cidreira - Estreite
Num ano onde as relações foram todas atordoadas pelo isolamento social, fazer um álbum que fala sobre estar presente na distância é totalmente necessário em um momento que se faz inevitável pensar o tempo todo nisso. Giovani e Josyara usam do pluralismo de ritmos da Nova Bahia para escrever sobre uma história de amizade e força em meio ao caos.


19. Hot e Oreia - Crianças Selvagens
Ano passado os rappers mineiros encabeçaram muitas listas de fim de ano por tratarem dentro do rap e do trap de assuntos não tão corriqueiros no segmento. Esse ano, novamente trazendo a sonoridade inusitada da dupla e com participações de peso, o foco de Hot e Oreia é, principalmente, falar sobre a masculinidade tóxica, sempre de forma muito poética, descontraída e acima de tudo, destemida.


18. Negro Leo - Desejo de Lacrar
Desde o momento onde a internet começou a acessar as casas de muita gente, fala-se muito sobre formações de opinião nesses tempos modernos. Aqui, Negro Léo usa de um pop torto e experimental pra contar sobre a dualidade que os ambientes virtuais causam. É uma espécie de estudo-reflexão em relação ao momento da história onde as ações se concentram em caracteres corridos numa tela digital. Uma crítica aos movimentos de idolatria e uma exposição dos arquétipos de influência digital.


17. Letrux - Aos Prantos
Poucos discos dialogam tão bem com o momento de pandemia que vivemos quanto Letrux Aos Prantos. Lançado em março, ainda que tenha sido produzido muito antes, o material parece uma premeditação para tudo que estava nos esperando. Depois de uma noite longa de dança e flertes, Letrux se resguarda e chora, pois chorar ainda é livre ainda que a política vigente tente a todo momento nos tirar qualquer liberdade. Apostando em novos sonoridades como o jazz, o samba, o álbum dá sequência ao que o grupo vinha realizando e aposta numa poética bastante contemporânea dos jovens millennials.


16. Carne Doce - Interior
Após lançarem o single Temporal em janeiro de 2020, era aguardado o quarto disco da banda Carne Doce. Partindo da exploração do conceito do interior, nos remetendo tanto ao lugar geográfico, tanto ao acesso profundo do nosso próprio eu. O grupo cresce por amarrar tão bem uma narrativa que fala sobre a própria sonoridade da banda, assim como de sentimentos tão universais e exploram ainda mais os instrumentos ligados a voz e poesia sempre tão presente de Salma Jô.


15. Tagua Tagua - Inteiro Metade
Nem sempre dá pra ser inteiro e nem sempre dá pra ser metade, não é mesmo? Com essa ideia, Felipe Puperi desenvolve o conceito do disco de estreia do Tagua Tagua, depois de dois EP’s lançados. O que nos chama muita atenção aqui é como o projeto se mantém coeso desde os primeiros trabalhos entregues e ainda mantém aquela vibe psicodélica, regada de referências brazucas e com letras bastante profundas. Cheio de camadas e texturas, o trabalho evidencia a maturidade do músico na construção conceitual que condiz com o trabalho visual do disco, sendo um dos mais bonitos do ano.


14. Carabobina - carabobina
Raphael Vaz, um dos membros do Boogarins e Alejandra Luciani, artista venezuelana, para além de serem um casal, tomaram a vivência do compartilhar também para esse belo registro sonoro. O disco possui várias costuras, numa estilera lo-fi e nesse sentido nota-se texturas que apontam para diversos lugares e sensações. A grandiosidade mora justamente no aspecto inóspito do material, de sonoridade orgânica e fluida.


13. TARDA - Futuro
O primeiro disco do grupo TARDA, Futuro parece colocar adiante o que nem sabemos nomear. Há algo de místico que surge dos vocais, dos ritmos e arranjos, como se estivéssemos constantemente diante de uma possível catarse. Involucradas num dreampop e shoegaze, o grupo parece construir um registro que leva a experiência de todos ali envolvidos, numa construção muito sensível e cuidadosa de uma narrativa que emerge diante da potência sensorial que produz.


12. A Trupe Poligodélica - A Transmutação do Eco em Lenda
O Brasil é um país muito rico de culturas regionais e uma das formas de se entender isso é quando faz-se um rebuscado de artistas independentes principalmente de fora do eixo RJ-SP. O impecável trabalho da Trupe Poligodélica cai como uma luva ao nos depararmos com um projeto profundo, com sonoridades ao mesmo tempo cruas e também contemporâneas, de uma poesia intensa e que te prende do começo ao fim. A Transmutação do Eco em Lenda é um daqueles álbuns que te chama pela capa, mas que depois te marca pelo conteúdo.


11. Bivolt - Bivolt
Com certeza Bivolt ganhou o público mainstream depois de seu incrível projeto interativo com 110v e 220v, duas das intensas faixas que endossam a história contada em seu álbum homônimo, mas a verdade é que ao ouvir o projeto em completo é de se entender a presença de Bivolt nas listas de melhores álbuns do ano. Com pinceladas de R&B e às vezes transitando também no pop, o álbum da cantora traz importantes participações que marcam a trajetória de Bivolt desde seu início de carreira nas batalhas de rima até os dias de hoje.


10. Jup do Bairro - CORPO SEM JUIZO EP
No seu primeiro trabalho em carreira solo, Jup do Bairro traz questões extremamente importantes no mundo de hoje. Ainda bem forte nos assuntos da dissidência de gênero, que tratava bastante nos projetos com Linn da Quebrada, Jup questiona o que podem as/es/os corpas anti normativas numa mescla de ritmos que ao mesmo tempo que consolida sua identidade sonora, também surpreende quem espera algo previsível.


9. Tantão e os Fita - Piorou
Após um trabalho que se calcava em uma desesperança e pessimismo, o projeto audiovisual de Tantão e Os Fita retoma os assuntos do ano passado somados a nossa atual conjuntura pra transformar o desespero, a ansiedade e a frenesia em musicalidade. Piorou, vai piorar, e o que nos resta é escolher nossa rota de fuga perante a isso tudo. O sufoco pandêmico nunca pôde ser tão bem retratado como foi aqui. .


8. Rico Dalasam - Dolores Dala Guardião do Alívio EP
O mais novo trabalho de Rico Dalasam faz parte da lista de grandes EP 's que foram lançados no ano. E quando dizemos grande é pelo poder de profundidade carregadas em tão poucas faixas. Em Dolores Dala Guardião do Alívio, o rapper coloca seu nome como um dos mais inventivos e potentes da geração. O disco, que canta sobre o amor, diante da sua vivência num corpo negro e dissedente, parece mudar as cartas do que havia fazendo e coloca sua rima e poesia num papel vulnerável e a força vem justamente daí, em ser humano.


7. Jadsa, João Milet Meirelles - Taxidermia Vol. 1 EP
Taxidermia vol. 1 é um curioso exercício em como imagens e texturas são transpassadas para o som em uma constante experimentação a partir das potencialidades que essas próprias imagens podem criar. Isso se deve pelas inúmeras sensações criadas pelos artistas, em um trabalho que tem como base a música eletrônica, permitindo criar várias texturas diante da voz potente de Jadsa.


6. Iara Rennó - AfrodisíacA
A música nacional sempre foi marcada por muito experimentalismo e psicodelia no que tange os artistas que tanto se ambientam quanto se referenciam do período das décadas de 60 e 70. Iara Rennó não muito distante disso, sendo filha de Alzira Espíndola e tendo trabalhado com Itamar Assumpção, carrega bem essas referências no seu mais novo trabalho que fala especificamente do prazer feminino ainda tão tabu. Fica difícil encaixar todo esse projeto em um lugar só por se tratar de algo plural, excitante, sexual e sensual, que apresenta elementos de música ambiente, palavra cantada e reúne um time de excelentes compositoras para contar essa narrativa recortada em cima do prazer vaginal feminino.


5. PLUMA - Mais do Que Eu Sei Falar EP
Nascido a partir do encontro do grupo na faculdade que cursavam, a estreia da PLUMA com o EP Mais do Que Eu Sei Falar, foi um dos lançamentos mais interessantes e sofisticados do ano. Usando da base do jazz e da música pop, ainda flertando com um som psicodélico, o disco consegue ser muito acessível em letras carregadas de um romantismo e melancolia de um jeitão indie de ser que a gente ama, ao passo que, usam de uma sonoridade experimental e madura e uma estética consistente.


4. Ventura Profana, podeserdesligado - Traquejos Pentecostais Para Matar o Senhor EP
Quando o que nos é oferecido são os um dos tempos mais sombrios já conhecidos, a palavra que fica é a de luta. A pastora delas, junto dos trabalhos eletrônicos carregados de hyperpop, tecno e vogue beat de podeserdesligado, criam a profecia da trava disseminando o Poder a Glória e a Palavra de Deize. Traquejos Pentecostais são a subversão da figura de poder cristã numa exaltação à trava.


3. Mateus Aleluia - Olorum
Numa sonoridade que acompanha muito bem as movimentações da música brasileira contemporânea, mas ao mesmo tempo sem abrir mão da carga espiritual e religiosa que Mateus apresenta em seu trabalho desde sua participação em Os Tincoãs, Aleluia aposta em sonoridades mais desprendidas pra falar de Olorum, regente da humanidade de dos orixás num dos melhores trabalhos do ano.


2. Luedji Luna - Bom Mesmo É Estar Debaixo D'Água
Esperado registro da cantora baiana depois do excelente Um Corpo No Mundo (2017). O disco trabalha com uma veia no jazz e com os instrumentos bastante evidentes, além do destaque para a produção do disco que foi realizada em diferentes países do continente africano. De sonoridade mais potente, Luedji Luna entrega um disco sobre o afeto ou a ausência dele, discutindo corpo, gênero, etnia e amor.


1. Kiko Dinucci - Rastilho
Usando do violão como base para as canções, Rastilho foi um dos grandes destaques do ano. Simples, sofisticado, o disco te transporta para cenários locais e ao mesmo tempo universais. Propositalmente duro, rígido, Dinucci entrega um disco bastante experimental e que amplia seus outros trabalhos solo e no Metá Metá.